Um médico jornalista no combate ao coronavírus

0

 

Quando alguém conhece Wilson Constante, de 35 anos, ele quase sempre ouve a mesma pergunta: “Mas você é jornalista e médico?”. E quando já o conheciam da época como repórter da TV Globo, tem quem fique ainda mais intrigado. “As pessoas perguntam surpresas como eu pude deixar a televisão, como se a vida de um repórter televisivo fosse apenas glamour”, ele conta. De fato, até os mais íntimos, quando o jornalista resolveu deixar o emprego para estudar medicina, não acreditaram. Afinal, ele era apaixonado por jornalismo. Muitos fizeram bolão sobre quanto tempo duraria a faculdade e até um chefe ofereceu o emprego de volta pra ele, se ele desistisse em seis meses. “Mas eu sigo repetindo que não abandonei o jornalismo, eu abracei a medicina”, diz Constante. Ele se formou em jornalismo em 2006 pela Universidade do Oeste Paulista. Ainda na faculdade, fez estágios na Rádio CBN, TV Record, TV SBT e freelas para o Estadão e a Folha de São Paulo. Naquele tempo, a região do Pontal do Paranapanema, onde ele morava, estava em alta nos noticiários. “Havia muitas ocupações de terra e conflitos agrários. Cheguei a filmar o material por conta própria com câmera amadora em VHS e mandar a fita por um portador”, conta ele. Quando se formou foi logo chamado para trabalhar. Foi produtor e repórter das filiadas da TV Globo no oeste paulista (TV Fronteira) e em Campo Grande-MS (TV Morena).

“Eu sou uma pessoa que queria mudar o mundo com a notícia. Mas eu ainda queria mudar o mundo um pouquinho mais de uma maneira diferente”, explica Constante. Durante a faculdade de jornalismo, o pai dele teve um tumor cerebral que acabou sendo fatal. Nesse tempo, ele conviveu bastante com o universo médico, o que contribuiu para o desejo de também fazer medicina. “Não é à toa que os meus amigos brincam com o meu sobrenome e me chamam de Wilson Inconstante. Sou muito agitado”, diz ele.

Ele se formou em medicina no final de 2019. Durante o curso, Constante teve mais uma prova de que as notícias estão sempre o rondando. Ele cursava medicina em Chapecó, interior de Santa Catarina, quando a tragédia do voo com o time da Chapecoense aconteceu. Em 29 de novembro de 2016, o avião da equipe caiu em Medellín, na Colômbia, e 71 pessoas morreram. O médico do time foi uma das vítimas e era professor de Constante na faculdade. Amigos jornalistas também faleceram no acidente.

Ele passou uma semana no estádio da cidade como produtor. “Eu passava as notícias para os veículos, recepcionava jornalistas estrangeiros, arranjei até tradutor de mandarim para repórter chinês. Havia muito trabalho, era o mundo querendo notícias de Chapecó”, diz. Hoje, Constante trabalha como clínico geral, atuando como “médico de família”, numa comunidade de renda média e baixa em Teodoro Sampaio, no interior paulista onde ele nasceu: “Eu atendo àquela população que, na época da faculdade de jornalismo, eu mostrava lutando por um pedaço de terra e hoje foram assentados.”

A maior preocupação no momento do médico-jornalista é o coronavírus. “A COVID-19 chegou por aqui na segunda quinzena de julho. Meus pacientes são sobretudo idosos e muito carentes”, diz ele. Assim, quando amigos, que tocam e cantam música sertaneja, quiseram fazer uma “live” no Instagram por causa do aniversário de um deles, Constante não teve dúvidas. Se ofereceu como assessor de imprensa e produtor para a “Live Solidária”. Fez roteiro, divulgação e coordenação, cumprindo seu papel jornalístico. Mas também estabeleceu os protocolos de proteção para o evento e incluiu dicas como médico durante a “live”. “Repetir a necessidade do uso da máscara, de lavar as mãos, de usar álcool gel, mostrar a importância do distanciamento social, nunca é demais”, diz ele.

E a “live” do médico-jornalista foi um sucesso. Foram 156 cestas básicas arrecadadas e encaminhadas para instituições carentes. Além de doações em dinheiro para a conta do hospital local, que recebe pacientes com COVID-19.

Aos colegas jornalistas, o médico pede paciência na cobertura da crise de saúde. “É importante que os jornalistas entendam que por se tratar de uma doença nova, uma pandemia, nem sempre os médicos e a comunidade científica vão ter as respostas para as perguntas feitas, porque justamente é um momento muito novo”, afirma. “Mas é importante entender que médicos e comunidade científica estão trabalhando incansavelmente para acharem estas respostas que o mundo está buscando. É preciso esta compreensão por parte da mídia. E a medida que estas respostas forem surgindo, cabe aos jornalistas repassá-las para a população de uma forma que todos entendam.”

Constante revela ter o sonho de conseguir unir as duas profissões, por exemplo, num programa de TV. “Eu acredito que qualquer projeto que envolva informação de qualidade com respaldo científico e que possa chegar ao maior número de pessoas através dos meios de comunicação, sem dúvida, é um desafio muito interessante”, explica ele.

Fonte: https://ijnet.org/pt-br/story/um-medico-jornalista-no-combate-ao-coronavirus

Share.

Deixar uma opinião

%d bloggers like this: