Situação do albinismo em Angola, na visão de um cidadão

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O Dia Mundial de Consciencialização do Albinismo acontece anualmente a 13 de junho.

Celebrado pela primeira vez em 2015, o dia foi proclamado pela ONU, para divulgar informação sobre o albinismo e para evitar a discriminação aos albinos, combatendo ao mesmo tempo a sua perseguição. Em comemoração ao dia do Albinismo, o jornalista Carlos de Carvalho abordou na primeira pessoa, as dificuldades que os albinos enfrentam em Angola e apontou possíveis soluções, numa entrevista cedida a TPA Online.

TPA Online – Como está a sociedade angolana em relação a consciencialização do albinismo?

C.C. – A nível do nosso continente, Angola não apresenta uma discriminação aberta e criminosa mas temos que aceitar com total realismo que existe estigma e disigualdade de oportunidade com trace para o mercado de trabalho e reconhecimento de mérito. Mas é tudo uma questão educação ou influência tradicional.

TPA Online – Internacionalmente o albinismo é classificado como uma doença. O que pensa sobre isso?

C.C. – Ainda tem sido motivo de debate em fóruns internacionais a questão se o albinismo é uma deficiência ou não. Particularmente considero ser uma deficiência devido a falta de pigmentação mas não uma doença como as vezes os mitos e os tabus procuram a todo o custo fazer crer.

TPA Online – Os cuidados com a pele albina tem custos. Em Angola é acessível?

C.C. – O cidadão albino de facto acarreta elevados custos para manter a saúde da pele. Os cremes de protecção solar custam aos olhos da cara e o governo não está e nunca esteve interessado em subvencionar fármacos e consultas de oftalmologia e dermatologia, o que existe são iniciativas individuais de especialistas nestas áreas que têm ajudado de forma particular os cidadãos albinos. Digo mais, por conta disso o país motila talentos e inteligências, cidadãos que valorizados e aproveitados enriqueciam o leque de quadros no país, tendo em conta o nosso mosaico cultural.

TPA Online – Os albinos ainda têm muitos desafios? Quais?

C.C. – Têm sim. Ter uma associação mais interventiva, maior apoios com protetor solar, consultas de oftalmologia em grande nível, material próprio para pessoas de baixa visão, maior abertura de oportunidades (formação, emprego e direitos de oportunidades).

TPA Online – Em 2019 realizou-se a 1ª Conferência Nacional sobre Albinismo, de lá para cá melhorou alguma coisa?

C.C. – As recomendações saídas da conferência nacional sobre o albinismo não estão a ser implementadas. A situação constrangedora que vivem alguns cidadãos albinos permanece, ninguém (dos sectores indicados) olha com os olhos de ver. Os cuidados de saúde continuam a ser negligenciados. Apenas do dia 13 de junho dedicado a consencializaçao da pessoa albina é que são feitas declaraçoes de apoio a causa dos albinos. Apenas isto e mais nada.

TPA Online – Já foi vítima de discriminação ou qualquer tipo de bullying por conta do albinismo?

C.C. – Claro que já fui discriminado, muitas vezes por um período curto, quando isso acontece prefiro colocar na mente que as pessoas (algumas) foram influenciadas ou vencidas por tabus. Sempre dei volta por cima, mostrando minhas qualidades enquanto ser humano, de resto, são factores acidentais.

TPA Online – Alguma vez recebeu algum apoio de uma ONG ou de alguma instituição do Estado?

C.C. – Não. Nunca recebi apoio de ONG ou do Estado. Tudo que sou é fruto da minha entrega naquilo que faço, meu a vontade e proatividade nas missões que me são confiadas mesmo com os obstáculos que nos são inerentes.

TPA Online – Conhece a realidade dos albinos no interior do país, nas zonas suburbanas? Se sim, como é?

C.C. – Os albinos que estão no interior do país, em zonas suburbanas, é lastimável a condição em que vivem. Todo mundo sabe disso e simulam sentimento de pena e desprezo, rejeitados e excluídos. Como manter um país assim onde não se respeitam as diferenças, onde não se protegem os mais fracos!

TPA Online – Que conselho deixa aos outros albinos em relação aos cuidados com a pele?

C.C. – O cuidado com a pele deve ser a maior preocupação de uma pessoa albina, sobretudo porque vivemos num país de clima tropical e a exposição ao sol é uma promoção para nós albinos, por esta razão aconselha-se o uso de protetor solar e roupas apropriadas. Por isso a necessidade do Estado ajudar com protetores solares e outros apoios, particularmente em albinos muito carenciados e que por preconceito afastam-se do processo de socialização.

TPA Online – Que palavra gostaria de deixar?

C.C. – A nossa Constituição de República plasma que somos todos iguais perante a lei e cabe ao Estado garantir os direitos fundamentais dos cidadãos. Apesar desta norma constitucional ser uma realidade formal, o certo é que no país muitos cidadãos ainda são discriminados pela cor da pele, pela condição social, raça, etnia e outros factos. É hora dos nossos governantes primarem por uma sociedade mais inclusiva baseada na justiça social.

FS

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