Raimundo Lima convida Yuri da Cunha para show “Live do Rallie e convidados”

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De nome artístico Rallie, o empresário brasileiro Raimundo Lima, que trabalha em Angola há 20 anos, realiza hoje um “Live” e escolheu Yuri da Cunha como um dos artistas convidados para ambos interpretarem dois clássicos do cancioneiro angolano, “Muxima” e “Humbi-humbi”, via “You Tube”. Em entrevista ao Jornal de Angola, Rallie afirma que, embora o espectáculo seja virtual, não tira o brilho dessa bela representação musical, e considera que as actuais mudanças políticas no país “são mudanças que os angolanos julgam necessárias porque haviam incompatibilidades com a nova conjuntura político-económica internacional”

O Live do dia 30, “Rallie e convidados”, integra o cantor angolano Yuri da Cunha. Qual foi a motivação para a escolha de Yuri da Cunha?

Eu hoje tenho duas pátrias: o Brasil, onde nasci, e Angola, a que adoptei por escolha. Vivo em Angola há 20 anos, convivendo muito proximamente com muitos artistas angolanos, sendo Yuri da Cunha um dos principais amigos, entre eles. E, como sabemos, Yuri da Cunha é um dos melhores e mais versáteis dos artistas “mangolês”, um dos mais laureados em África. A sua musicalidade, o seu talento e o seu “showman” são reconhecidos internacionalmente. Por exemplo, ele fez 39 shows na Europa, abrindo concertos do astro Eros Ramazzotti. Além disso, somos realmente muito amigos, ele e os integrantes da sua banda ficam sempre em minha casa quando vão a Bahia, tendo sido meus hóspedes várias vezes, Portanto, tenho todos os motivos para a escolha de Yuri, que vai abrilhantar o “Live do Rallie”, cantando comigo dois temas que marcam a história musical de Angola: “Muxima” e “Humbi-humbi”.

Como será a participação dos artistas convidados, estarão todos no mesmo palco ou pela via virtual?

Infelizmente o Brasil tem sido um dos países mais afectados pela pandemia mundial, sendo a segunda nação com maior número de vítimas da Covid-19. Já são quase 120 mil vidas ceifadas pelo coronavírus e mais de 3,7 milhões de brasileiros infectados, só sendo superado nessa triste estatística pelos Estados Unidos. Assim, todo cuidado é pouco com a propagação do vírus, não sendo recomendado a utilização do palco para shows ao vivo. Será, pois, um encontro virtual, porém, isto não tira o brilho dessa bela representação musical de Angola.

Como os angolanos podem acompanhar o espectáculo virtual?

Neste momento, estou na Bahia, no Brasil. Trata-se de um “Live” dinâmico, com música durante duas horas e a participação, além de Yuri da Cunha, dos artistas brasileiros Genival Lacerda e Altay Veloso, e do português Mico da Câmara Pereira. Podem acompanhar através do “YouTube”, às 19 horas, em Luanda e Lisboa, clicando em “https://youtu.be/XK4T29L3baM”, que dá acesso directo do “Live” (espectáculo).

A sua carreira artística tem influência de Angola, ou vem apenas da Bahia?

Eu saio de Angola, mas Angola não sai de mim. A minha convivência com os angolanos durante essas duas décadas, especialmente no cenário musical, terminou me incentivando a dar início a uma carreira artística profissional. Foi em Luanda que eu me animei a subir em alguns palcos, ainda de forma amadorística. E agora, mesmo aos 63 anos de idade, decidi trilhar por uma carreira artística, incentivado que fui por muitos amigos, sobretudo de Luanda. A minha ligação, quase umbilical com a música angolana, fez com que tanto o meu disco de estreia quanto nos quatro shows que fiz em teatros no Brasil no final do ano e início deste, com casa lotada sempre, dediquei boa parte do repertório ao cancioneiro de matriz africana, principalmente de Angola. Inclusive tive a honra de contar com a participação fenomenal de um ícone da música africana, Filipe Mukenga, na gravação comigo de um “medley!” de temas angolanos no meu CD “Surpreendente!”. Neste “Live do Rallie” não haveria de ser diferente: a nossa música de raiz africana domina uma parte significativa do espectáculo.

Tem ideia de realizar espectáculos em Angola, se sim, como idealiza?

Sim, claro. Estávamos a programar um show ainda no primeiro quadrimestre deste ano, entre Março e Abril, mas a pandemia provocou o adiamento desse projecto. Pretendo fazer, logo, pelo menos dois espectáculos nas terras da “Kianda” com participação de alguns convidados especiais da música angolana, logo que a situação sanitária esteja realmente controlada internacionalmente. Pretendo convidar um madrigal que eu apoio em Angola para dividir o palco comigo em algumas canções. Há de ser um show inesquecível para todos que nos prestigiarem. Talvez ocorra em Maio, pois já fomos contratados para fazer um show em Portugal e o nosso plano é seguir de lá para fazer também o espectáculo de Angola na mesma digressão.

Como consegue conciliar a vida empresarial com arte musical?

Hoje as actividades laborais exigem menos de mim, sobretudo por causa da grave crise económica que vivemos em Angola, decorrente sobretudo das oscilações e baixa do preço do petróleo mundialmente. Mas, ressalto que há algum tempo venho buscando dar vazão aos meus instintos musicais discretamente, conciliando com as actividadestécnicas e empresariais. Sou compositor de algumas músicas gravadas por outros artistas em Angola, como a que fez sucesso, “Canto à Alfabetização”, tornou-se o hino do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE), gravado por dez cantores angolanos. Já compus músicas para a Copa do Mundo, com a canção “Força, Palancas!”, para a Selecção de Angola, em 2006, na Alemanha, a convite da Rádio Nacional de Angola, gravada pelo grande Filipe Mukenga, e “É hexa”, que gravei para a selecção brasileira, em 2018, com participação de Armandinho Macedo, líder da banda “A Cor do Som” e do Trio eléctrico Dodô e Osmar.

Semba e samba. Na sua opinião há ou não entrosamentos rítmicos, e afinidades históricas?

Não tenho dúvida. Só resta saber quem nasceu primeiro, se o semba ou o samba. Há controvérsias. (risos). Há estudiosos que apontam o surgimento do samba a partir da influência do semba, inclusive alguns brasileiros. Eu mesmo componho e canto vários sambas sempre, mas também interpreto MPB e boleros, além do repertório de origem africana, sempre explorando o meu timbre grave e a capacidade de atingir notas altas com facilidade.

Por que admira Filipe Mukenga?

Filipe Mukenga tem, antes de tudo, um belíssimo timbre de voz. Não é por acaso considerado o Milton Nascimento de Angola. E o seu repertório é diferenciado, com belíssimas canções interpretadas com maestria. Além disso, é uma pessoa especialíssima, um ser humano espectacular, de uma simplicidade inigualável. É um irmão que eu adquiri em Angola.

Tem planos para regressar a trabalhar em Angola?

Eu continuo com as actividades empresariais em Angola, apesar do afastamento físico que esta pandemia me obrigou este ano. Mantenho a minha casa em Luanda e algum negócio sobrevive a duras penas. Tenho esperança de que as coisas melhorem e que possamos voltar a desenvolver belos trabalhos como fizemos, sobretudo na comunicação, no ensino técnico profissional e na aceleração escolar, por exemplo.

As mudanças políticas que Angola vive desde 2017, que leitura?

São mudanças que os angolanos julgam necessárias porque haviam in­compatibilidades com a nova conjuntura político-económica internacional, inclusive. Desejo que essas mudanças não afectem o clima de paz e harmonia conquistado a duras penas e que o país consiga retomar rapidamente o necessário crescimento económico, a fim de criar mais empregos e proporcionar melhores condições de vida a todos os angolanos, sempre com democracia e justiça social.

Rallie: “um sonho em movimento”

Quem é Rallie?

O intérprete e compositor Rallie sempre foi conhecido como Raimundo Lima, o jornalista, empresário e especialista em Direito Eleitoral. Sempre gostou de cantar, mas nunca quis seguir carreira profissional, anteriormente. Agora, surpreende muita gente com a sua performance na nova vertente como cantor, em que adopta o cognome de “Rallie”, que lhe foi sugerido há muitos anos pelo lendário cantor Tim Maia. Em Angola eu tive a satisfação de ser o coordenador técnico da reforma do Jornal de Angola e do Jornal dos Desportos (publicações da Edições Novembro), no início dos anos 2000 e, em seguida, enveredei pela vida empresarial. Fui presidente por uma década da Assembleia Geral da Associação dos Empresários Brasileiros em Angola, e também estive à frente do Grupo Aldeia Global, com actividades em áreas diversas, como comunicação, educação, desminagem, infra-estrutura, tecnologia de informação e de responsabilidade social.

A sua estreia como cantor ficou marcada com a participação de Gilberto Gil, incluindo videoclipe. Descreva-nos essa opção em partilhar o palco com Gilberto Gil.

Quanta honra ter gravado com um dos maiores artistas da história do Brasil, Gilberto Gil, uma música emblemática: “Um sonho”, de sua autoria. Para mim, foi um feito maravilhoso, pois é realmente um sonho concretizado registar em disco uma parceria fonográfica com o mais eclético de todos cantores brasileiros. O encontro no estúdio Ampera foi um momento único e muito intenso. Ninguém deve perder a oportunidade de ouvir a música e ver o nosso videoclipe dessa pérola musical que está nas plataformas digitais. Sou suspeito, mas toda gente diz que ficou lindo, emocionante, muita gente chora ao escutar. Para o artista, não há dinheiro que pague o prazer de criar essa possibilidade de provocar alegria, felicidade e emoção nas pessoas. É um sonho em movimento.

Fonte: JA

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