Por entre gruas e guindastes jaz a memória do 4 de Fevereiro

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Ao lado de um dos terminais do Porto de Luanda, ornamentado com enormes guindastes cinzentos-escuros, vedações, pré-fabricados que servem de base administrativa para várias empresas, está a antiga Casa de Reclusão Militar (ou Fortaleza de São Francisco do Penedo).
Em escombros, entaipada por obras travadas pela falta de dinheiro e apertada entre a era do petróleo, a era colonial e a luta de libertação nacional.
A transformação da antiga fortaleza em museu temático foi anunciada em Dezembro de 2018. Por estes dias, no local, encontramos apenas dois ou três trabalhadores e um segurança. A obra de restauro deveria estar concluída em 18 meses mas, neste mo-mento, os trabalhos estão paralisados. São visíveis algumas benfeitorias, mas nada de muito relevante – o edifício continua a parecer uma ruína, à espera da machadada final.
A antiga Casa de Reclusão Militar, para além de prisão, foi depósito de escravos e fez parte da primeira linha de defesa da cidade de Luanda. A posição vantajosa garantia, ao contrário dos tempos mo-dernos, uma enorme vista em plano aberto sobre o Oceano Atlântico. Ali também estiveram detidos elementos do famoso Processo dos 50.
Classificada como Património Histórico Nacional, em 1992, as obras de restauro e apetrechamento foram entregues à empresa de construção Mota-Engil Angola. O orçamento para a empreitada chega aos 37 milhões e 785 mil kwanzas.
Durante a cerimónia de entrega da empreitada, ainda em 2018, Carolina Cerqueira, que na altura era ministra da Cultura, disse que a recuperação seria o “início de um programa que assenta na recuperação do património físico do imóvel, além da sua recuperação histórica e memorial”, medida necessária porque “as novas gerações estão ávidas de conhecer a longa História do país.”
Só que há imagens que contam histórias profundas. Mais do que a retórica, remetem-nos para o cinema e para a facilidade em criar uma narrativa a partir dos pormenores: a Casa de Reclusão Militar está apertada pela vida de um país agarrado ao petróleo. Parece um exagero, mas talvez não seja.
Onde antigamente corria o mar calmo da praia da Rotunda, agora estão um sem-número de camiões à espera de serventia. Cheira mais a gasolina e a outros fumos e odores industrializados do que propriamente a lagostas e areias finas. No meio deste cenário urbano-industrial estendem-se os espíritos de prisioneiros angolanos que ali estiveram apenas por desejar um país.
Foi por desejar um país que centenas de guerrilheiros com pouquíssima instrução militar se organizaram para causar um tumulto de origens nacionalistas. Foi uma surpresa para a maioria da sociedade colonial, agarrada à propaganda e à afirmação de superioridades sem base factual. No dia 4 de Fevereiro de 1961, pouco tempo depois do massacre da Baixa de Cassanje e pouco tempo antes do 15 de Março, foi um levantamento popular que deu início oficial à luta armada de libertação.
O objectivo do 4 de Fevereiro passava por soltar uma série de presos políticos que estavam espalhados pela Casa de Reclusão Militar, Cadeia de São Paulo e outros estabelecimentos prisionais. Os restantes alvos foram a antiga Emissora Nacional (que naquele tempo era estação de rádio oficial portuguesa), os Correios e esquadras policiais.
Tudo leva a crer que a preparação envolveu elementos importantes das Igrejas Católica, Metodista e Tocoista.
Agostinho Miguel Inácio “Kisekele”, um dos sobreviventes do levantamento, recordou, em 2017, em entrevista ao Jornal de Angola, que o Padre Manuel das Neves avisou o grupo de guerrilheiros sobre uma suposta fuga de informação que poderia colocar em causa o objectivo final.
“Ele orientou que tivesse tudo preparado e que fizéssemos o ataque ainda hoje ou amanhã, porque se falhasse, eles iriam agir. Isso serviu de motivação para que o acto tivesse lugar no dia 4 de Fevereiro”, contou Kisekele.
Nos dias após o ataque, a reacção do regime colonial foi dura e obsessiva. Intensificaram-se as perseguições políticas, teve início a guerra de libertação, o Governo português reforçou os processos de ocupação do território e encetou um programa de reformas económicas e políticas para tentar reverter o quadro de grande pressão nacional e internacional. 
Para Agostinho Miguel Inácio “Kisekele” o maior ganho do 4 de Fevereiro “foi a abolição do indigenato em Angola”.
O indigenato garantia a existência legal do trabalho forçado, uma estratégia para contornar o fim da escravatura e garantir a exploração de mão-de-obra barata. O 4 de Fevereiro é um marco porque demonstrou a inevitabilidade da Luta Armada para desmobilizar o regime colonial.
Algumas décadas depois, o crescimento do Porto de Luanda, motivado pela necessidade de exportar crude em bruto, ao mesmo tempo que a doença holandesa e dependência do petróleo empurrava o país para a preguiça e altivez fajuta da importação de tudo e mais alguma coisa, desde tomate de má qualidade, até galinhas-rijas sabe-se lá de onde, quinquilharias de gosto duvidoso e maquinarias de toda a espécie e feitio. Está aqui o resumo da economia do país nos últimos 40 anos.
Até a alusão à doença holandesa faz uma curiosa intersecção com o período colonial, exemplo maior de que a História não se muda apenas com gritos, palavras de ordem, mãos a bater no peito e novas bandeiras. Há um rio frondoso que corre profunda e estranhamente debaixo dos nossos pés. E nas entranhas das memórias colectivas.

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