O cabelo crespo na sociedade é visto com algum preconceito diz especialista em tricologia

0

Dina Kambeu Moreira, é tricologista, especialista em Queda “Hair loss specialist” e Terapia capilar.

Há mais de 5 anos que ela atua nesta área, fruto do seu amor pelo cabelo, a “Dra. Cabeluda”, como é tratada carinhosamente pelas suas clientes apostou na formação em tricologia, passando pelo “United States Trichology Institute” e “Tricologia Clínica” pelo I.A.T “International Association of Trichologists”.

Numa era em que as mulheres negras são muitas vezes discriminadas por assumirem os seus cabelos afro, Dina ajuda muitas delas a aceitarem-se como tal e a recuperarem a sua auto-estima, mimando o cabelo de formas a que ele cresça saudável.

No entanto, para que isso ocorra, é preciso determinação e paciência por parte de quem pretenda que o seu cabelo cresça saudável.

Multimédia: O que é a transição capilar?

Dina Moreira: É o processo em que decidimos parar o uso de produtos químicos que alteraram a estrutura da nossa fibra capilar (cabelo) de forma permanente e deixamos o mesmo crescer no seu estado natural.

Multimédia: Factor genética pode influenciar no crescimento do Cabelo?

Dina Moreira: É o principal determinante do crescimento capilar. A nossa genética é responsável por gerir a fase activa de crescimento capilar, que é a fase anágena. Por exemplo, a genética pré-determina sim quantos centímetros teremos de crescimento mensalmente, mas para realmente ver comprimento um outro factor bastante importante entra em causa, a retenção capilar. Apesar da genética determinar o crescimento do nosso cabelo, a saúde capilar depende das nossas decisões. Por mais crescimento que tenhamos, se o nosso cabelo não estiver saudável e quebrar num ritmo mais acelerado, veremos pouco desenvolvimento. O comprimento do nosso cabelo depende da genética e a retenção capilar é nossa responsabilidade.

Multimédia: Como manter um cabelo, saudável?

Dina Moreira: De um modo geral, minimizando os cuidados, lavar e fazer tratamentos pelo menos uma vez por semana, e mantê-lo hidratado no dia a dia com algum creme hidratante ou mesmo a água. O primeiro ponto é sempre conhecer o nosso cabelo. Qual é o seu estado actual? Quais são as características do mesmo? Como ele comporta-se ao aplicar essa ou aquela técnica? São questões importantes porque cabelo saudável é poder agir de acordo a combinação dessas respostas logo vai variar de pessoa para pessoa.

Multimédia: O desejo em assumir o cabelo crespo é cada vez mais forte, basta olhar para o número de pessoas que hoje andam pelas ruas com cabelo natural, mas infelizmente o preconceito ainda prevalece na sociedade. Concorda?

Dina Moreira: Concordo sim e infelizmente também já fui vitima de preconceito relacionado ao meu cabelo. Apesar de já termos bastante informação acerca do nosso cabelo natural, ainda existe um trabalho todo de conscientização a ser feito no sentido de tornar o cabelo natural cada vez mais aceite e cabe a cada um de nós fazer a sua parte de educar as pessoas sempre que deparar-se com episódios de preconceito. Temos que perceber que foram anos, que como mulheres negras, o nosso cabelo era visto como feio e pouco apresentável sendo assim a mudança de consciência vai levar tempo mas começa com cada um de nós, pela a nossa própria aceitação do nosso próprio cabelo para poder educar de forma eficiente a sociedade em geral.

Multimédia: O que se escuta em relação ao cabelo afro é que é duro, feio e não cresce. Partilha desta ideia?

Dina Moreira: Discordo completamente. Todos esses rótulos foram impostos num momento em que não tínhamos muita informação sobre os cuidados a ter com o nosso cabelo. Cabelo afro bem cuidado é simplesmente lindo, mas nós devemos cuida-lo! Começa conosco, é importante continuar a trabalhar neste sentido. Não importa o que digam, devemos conhecer, mimar e cuida-lo.

Multimédia: A não aceitação do cabelo crespo, pode influenciar para o não tratamento adequado do cabelo influenciando o não crescimento?

Dina Moreira: Com certeza influencia na sua saúde capilar. O que geralmente acontece é que existem pessoas que voltam a usar o cabelo natural, não para assumir a sua real textura e sim na tentativa de moldar o seu cabelo a imagem do cabelo de outra pessoa. O que leva as mesmas a cuidarem do seu cabelo seguindo o que a outra faz para o seu cabelo que é completamente diferente, e o resultado é o cabelo responder negativamente, quebrar, ressecar, e com o desenvolvimento estagnado. Precisamos aprender a conhecer as características do nosso próprio cabelo para poder adequar os cuidados a isso, fazendo isso poupamos frustrações e economizamos tempo e dinheiro.

Multimédia: Tem actualmente 2 centros de tratamento de cabelo e 1 de terapia capilar, quais são as reclamações mais frequentes apresentadas pelas mulheres angolanas que procuram os seus serviços?

Dina Moreira: Queda capilar em especial alopecia por tração é uma das patologias mais comuns que recebo. Em 10 mulheres que recebemos em consultório, 8 sofrem com a alopecia por tração, que é uma queda capilar causada devido a tensão\tração excessiva do cabelo por penteados apertados como tranças, apanhados, aplicações de extensões. Infelizmente desde muito pequenas, os nossos cuidados capilares rondam em torno de tracionar o nosso cabelo e depois de anos dessa práctica a conseqüência acaba sendo a esse tipo de queda capilar que muitas vezes infelizmente acaba sendo irreversível.

Multimédia: Há pessoas que pregam a ideia de que o cabelo no ar passa a imagem de desleixada e desarrumada já o cabelo liso de boa imagem…. por essas questões, muitas pessoas passam pelo processo de alisamento ainda na infância.

As mães, na maioria das vezes, pelo facto de terem mais facilidade na hora de pentear o cabelo, submetem as filhas ainda pequenas a processos químicos. É correto esse procedimento?

Dina Moreira: Não. Produtos alisantes são extremamente agressivos e jamais devem ser aplicados no cabelo de crianças. Pode parecer ser a opção mais fácil porém a menos saudável.

Multimédia: Como tratar do cabelo de uma criança?

Dina Moreira: Minimizando os cuidados porque as crianças não são tão pacientes logo quanto menos tempo sentadas melhor. Um passo importante e que faz toda diferença na hora da manipulação antes mesmo de usar um pente ou uma escova, é borrifar um pouco de água ou usar algum creme de pentear para dar mais maleabilidade e elasticidade ao cabelo, e começar a pentear segurando o cabelo na raiz e penteado começando nas pontas. Essa pequena técnica diminui e muito o desconforto no couro cabeludo o que deixa a criança mais tranqüila e obediente na hora de tratar do cabelo.

Multimédia: Com que idade as mães devem começar a preocupar-se com o cabelo das suas filhas?

Dina Moreira: Acho que a preocupação de uma maneira inconsciente começa logo que elas vêem ao mundo rsrsrs já compramos os shampoos infantis e após o banho escovamos levemente e torna-se uma rotina capilar, nessa fase o melhor é manter tudo simples e procurar aconselhamento junto ao pediatra para qualquer questão relacionada ao couro cabeludo. Geralmente a partir dos 3 anos já podemos começar a mimar um pouco mais o cabelo delas em função das características do mesmo, com produtos apropriados a idade da criança.

Multimédia: Quais são os conselhos que gostaria deixar na luta para desconstruir a carga histórica social que afirma a todo momento “o cabelo crespo é mau”?

Dina Moreira: A luta deve passar pela consciência da aceitação por aquilo que somos. O nosso cabelo é parte de nós e tal como tudo em nós devemos abraçar e estimar. Devemos ensinar as crianças a aceitar e a respeitar as diferenças. Se fizermos isso já estaremos a garantir que não se passe essa carga para outra geração. Ame o seu cabelo, ame a si mesma e ame o próximo.

Entrevista conduzida pela Jornalista Esperança Gaspar

EG

Share.

Deixar uma opinião

%d bloggers like this: