Luanda Velha tem roteiro turístico

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Uma excursão pedestre ao longo da chamada Rota dos Escravos em Luanda, realizada ontem por uma equipa multissectorial, marcou o início da recolha de informações para a criação de um roteiro turístico exclusivo à parcela da capital angolana que alberga os edifícios mais antigos e parte substancial da sua história.

Para a empreitada, o Ministério do Turismo juntou, entre outros especialistas, gestores de hotéis, arquitectos, historiadores e juristas, afectos a distintas instituições, com a expressa pretensão de envolve-los nos trabalhos de levantamento de informações e deles colher os contributos necessários.
O ponto de encontro foi a Universidade Lusíada, para aonde a ministra do Turismo, Ângela Bragança, se deslocou por volta das 9h00 da manhã, hora marcada para o início da jornada de campo, que, na verdade, começaria minutos depois na Cidade Alta, centro dos poderes político, religioso e económico em Luanda, ao tempo da escravatura.
Da Cidade Alta, a comitiva rumou para o Largo de Pelourinho, passando pela calçada com o mesmo nome, por detrás da Universidade Lusíada. A história desse local, resume, por si só, a brutalidade da escravatura.
Aqui, os negros eram expostos em feira, para exibir os mais robustos e, supostamente, mais resistentes ao trabalho forçado. Autoridades autóctones que se recusaram a colaborar com tráfico negreiro foram “exemplarmente” punidas aqui, com pena de morte.
A escassos metros daí, fica a Rua dos Mercadores, aquela viela que vai da Igreja dos Remédios e que desagua no agora Largo do Atlético, defronte ao Banco de Comércio e Indústria (BCI).
Maria Cristina Pinto, historiadora parca em vocabulário científico mas rica em detalhes que remetem habilmente ao passado, conta que, ao tempo do tráfico de escravos, a Rua dos Mercadores era, toda ela, habitada por comerciantes de escravos.
A testemunhar isso estão os sobrados de edifícios, geralmente, tridimensionais, com a parte frontal de baixo a servir de estabelecimento comercial, a interior de armazém para escravos e a superior de residência.
O agora designado Largo do Atlético, é na verdade um monumento erigido em memória a um capitão português, chamado Luís Lopes de Sequeira. Que aliás, ainda conserva o nome lá, em sítio bem visível e com uma observação no mínimo caricata para os tempos que correm: “Vencedor da Batalha de Ambuíla”, que derrubou o Rei Congo, D. António I, há 354 anos.
Reza a história que depois de morto e degolado, a cabeça do Rei do Congo foi transportada e exibida como troféu ao longo do percurso que vai do actual Largo do Ambiente à Igreja dos Remédios, onde ficou exposta o tempo que levou a secar, até ser sepultada.
Além da Paróquia dos Remédios, a excursão abarcou as igrejas da Misericórdia, de Jesus e dos Remédios, que entram na rota dos escravos por culpa do apoio que, segundo historiadores, os missionários católicos deram ao comércio de escravos.
Calcula-se que tenham saído de Angola, entre 1501 e 1866, perto de 5,7 milhões de escravos, segundo a base de dados americana Atlantic Slave Trade. O país foi uma das grandes fontes emissoras de comércio de escravos desde o século XV até meados do século XIX. E a Igreja Católica desempenhou um papel importante não só na ladinização de escravos, mas no seu comércio.

Fonte: JA/LD

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