Livro “Gingas na minha retina” da cantora Gersy Pegado

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Num depoimento singular sobre o percurso das Gingas do Maculusso, apresentado no programa, Vozes do Semba, série de documentários sobre a história da Música Popular Angolana da TPA, Televisão Pública de Angola, Gersy Pegado demonstrou possuir um enorme talento e eloquência, pela pertinência das suas revelações intelectuais, no domínio artístico e filosófico.

A forma estruturada e escorreita como elaborou a sua narração, com descrições pormenorizadas sobre a génese e visão histórica das Gingas, denotava uma real possibilidade da cantora registar em livro, a memória das suas impressões para a posteridade.
Na verdade, os relatos de viagens e factos vividos pela cantora, reunidos em livro, fez-nos lembrarde forma automática, o nostálgico e referido depoimento na TPA, ocasionado por um encontro profissional, que acabou por revelar aspectos inéditos da história das Gingas.
Tal como as nobres famílias musicais do célebre guitarrista, Eduardo Garcia Adolfo, Duia, em Luanda, e Orlando Semedo, maestro, pianista e fundador dos “Impatus 4”, em Benguela, a obra das Gingasconstitui um importante legado de honra e celebração da mulher angolana no domínio da música, constituindo o seu resultado, um caso emblemático de ensino artístico de natureza intra-familiar, num processo que foi orientado, sabiamente, pela professora, Rosa Ermelinda Roque Pegado, mãe da cantora, fundadora das Gingas,eminente entusiasta, mulher de cultura e uma das mais importantes compositoras angolanas, a par de Rosita Palma.
A estrutura da secção vocal do grupo, sobretudo no seu período áureo, impacto da dança, teatralização, coregrafias, postura em palco e a tipologia, endógena, das letras, aliada ao ambiente poético que as canções instauram na nossa memória colectiva- um inequívoco contributo artístico da professora e compositora, Rosa Roque- são atributos que fazem das Gingas, uma formação, única, na história da Música Popular Angolana.
Neste momento as Gingas do Maculusso têm um concerto ensaiado para um reencontro, em data a anunciar, que será protagonizado pela Gersy Pegado, Daniela Miranda, Patrícia Faria, Josina Stella, Celma Miguel, Maria João, KizuaGourgel e Figueira Ginga.

Professora
A Professora Rosa Roque projectou nas Gingas, enquanto personalidade de grande mérito e magnitude cultural, as suas experiências e visão distante e poética da sua cultura de origem, em Malange. Compositora de múltiplos recursos criativos, Rosa Roque denota um conhecimento profundo da língua e cultura Kimbundu, tendo iniciado o seu trabalho de orientação pedagógica das Gingas, em 1982, num dos programas infantis da Rádio Nacional de Angola, incentivada pela jornalista, Amélia Mendes.Um dos grandes méritos da professora Rosa Roque, a par de outros não menores, foi de ter assumido e feito absorver pelas Gingas, uma cultura musical em Kimbundo, que acabou por conviver, de forma pacífica, com os gostos musicais característicos de uma geração jovem, normalmente vinculada à música anglo-saxónica e norte-americana.

História
Tudo começou com o Duo, Gercy Pegado e Ruzena Galiano, duas primas inseparáveis, que a Professora Rosa Roque foi observando, com apenas três anos, o desenvolvimento do timbre vocal e a propensão natural para a música. O grupo definitivo que iria constituir a primeira formação das “Gingas do Maculusso”, sem a Ruzena Galiano que acompanhou os pais para uma missão diplomática, apareceu quando a professora Rosa Roque integrou, como funcionária, os quadros da Secretaria de Estado da Cultura. As meninas que fizeram a história das Gingas, na sua primeira formação, foram a Paula Daniela, Josina Stela, Celma e a Anicete, a última das quais já falecida, dinamizaram, um trabalho, a partir de 1982, que veio a transformar e dar novo impacto ao panorama musical angolano. A aparição das Gingas foi uma verdadeira revolução do canto no feminino, numa linha de continuidade do trabalho iniciado pelas cantoras, Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Conceição Legot, LillyTchiumba, Dina Santos, Garda e seu conjunto, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves e Conchita de Mascarenhas, vozes que marcaram a história feminina da Música Popular Angolana.
Formação
Jovem de firmes convicções, GersyLectíciaRoque Pegado nasceu em Luanda no dia 20 de Março de 1979. Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Angola, possui o Curso Médio de Ciências da Educação, na especialidade de Metodologia em Ensino daLíngua Inglesa, pelo Instituto Médio Normal de Educação de Luanda, Garcia Neto. A cantora colecciona ainda, no seu currículo académico, os Cursos de Educação Cívica, nas categorias de Activista e Formadora de Activista, pela NDI. Tem desenvolvido o associativismo, como membro de pleno direito, da Comissão Directiva da UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores.

Dança
A dança, aliada à música, tem sido uma componente de suma importância na apresentação, e teatralização das Gingas em palco, sobretudo quando o género é o ritmo dançante e frenético do Semba. Embora a Gersy Pegado tenha uma notável inclinação e colaboração na criação dos passos coreográficos que fizeram história no percurso artístico do grupo, a actualização da dança atinge o seu ponto alto, com os ensinamentos da professora Rosa Roque, principal mentora do grupo.Quando a criação coreográfica solicita aspectos de interpretação mais tradicionais, a colaboração do grupos Yaka e Kilandukilu, têm sido os dois recursos mais solicitados. A ideia de introduzir a dança na Gingas, foi inspirada na estratégia coreográfica, celebrizada pelos grupos, SSP e N´SexLove, formações que entendem o fenómeno da dança, como elemento de grande impacto, complementar à música.


Primeiro livro escrito por uma cantora angolana
O livro, “Gingas na minha retina”, de Gersy Pegado, narra a história das Gingas do Maculussoatravés das ocorrências e episódios mais marcantes das digressões do grupo, numa espécie de sucessão fílmica de eventos. O relato surge como pretexto para contemplarmos os encantos de Angola, a sua natureza, num ritmo crescente de escrita, que nos faz revisitar o glorioso percurso de um período, ainda em aberto, da carreira das Gingas. A obra aborda de forma visionária e perspicaz, questões ligadas à teorização da arte, às contradições do mercado musical angolano e sustenta uma reflexão sobre um segmento musical que, embora tenha qualidade, se encontra, injustamente, fora do sucesso comercial e das grandes promoções na comunicação social.
O texto é um testemunho de época e ganha pela sua magnitude histórica e simbólica, por ser o primeiro livro de uma cantora angolana que aborda as experiências de uma artista, enquanto integrante de um grupo musical de referência. Numa análise retrospectiva, não existe na história da Música Popular Angolana uma publicação do género, com a qual se possa estabelecer uma aproximação ou semelhança comparativa.Embora focalize, em particular, aspectos circunscritos à vida das Gingas, o livro prestigia e será, do ponto de vista prospectivo, uma referência, incontornável, de um momento importante da história da Música Popular Angolana. Passaram-se cerca de quarenta anos desde os tempos longínquos da “Mangonha” e do “Xixi na cama”, e hoje a Gersy Pegado revela, em livro, o alcance simbólico da sua jovem e crescente, maturidade intelectual.Gersy Pegado entrou para o universo da literatura infantil com a publicação do livro, “O arroz e o feijão”, 2012, uma proposta textual de pendor pedagógico e educativo, onde os legumes são habilmente personificados, constituindo uma proposta para a mudança da dieta das crianças, evitando os doces.

Fonte: JA/LD

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