Literatura e música animam crianças no confinamento

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Graciete Mayer
Depois das festas e fogos de artifício pelo advento de 2020, com o início do ano lectivo, as crianças ansiavam regressar às aulas. Diante da novidade do ambiente escolar, tudo era alegria e expectativas, novos colegas, amigos e professores
Vindo dos recônditos do Sul asiático, mal se pensava na imprevisível chegada do Covid-19 a Luanda. A cada dia, os números de contaminações foram subindo e se alastrando no mundo inteiro até desembarcar no aeroporto de Luanda.

Em Março, na sequência dos primeiros casos da Covid-19 as autoridades, por força do Decreto Presidencial, decidiram suspender as aulas. Assim, as crianças voltaram para casa, pouco tempo depois do reinício do ano lectivo. Estão confinadas em casa por mais de dois meses.

Hoje é o Dia da Criança Africana. Uma data que em condições normais devia ser assinalada com diversas actividades nas escolas para homenagear as crianças, que morreram em Soweto, na África do Sul, por reivindicarem os seus direitos. Mas por causa da Covid-19 estão hoje forçadas a um confinamento que as limita de se movimentar.
É o caso dos irmãos Lourenço, que continuam ansiosos por regressarem às aulas, de voltarem a visitar as famílias, de brincar nos parques, ou seja, terem a liberdade de ir e vir às províncias e cidades deste lindo país.

Desde que foi suspenso o ano lectivo a 24 de Março, a sua rotina não tem sido fácil. Para quem estava acostumado a dormir às 20h e acordar às 6h da manhã para ir à escola, hoje o cenário é outro.

Entre a exigência de lavar as mãos com maior frequência, não poder abraçar os pais, não visitar familiares, o stress tomava conta dos meninos. Mas à medida que o tempo foi passando os pais decidiram encontrar na arte uma nova rotina.

Abriu-se a biblioteca e eles apaixonaram-se pela obra “As aventuras de Ngunga”, de Pepetela. Em dias seguidos, acompanharam a odisseia do personagem principal, de Uassamba e de União. Dormiam e acordavam com o livro publicado no final da década de 1970.
E no final, queriam saber onde estava Ngunga. Fizeram perguntas e, insatisfeitos com o final da estória, sugeriram um segundo volume de um dos livros mais lindos do autor. Aqui fica um desafio a Pepetela.

Os três leram o livro e foram interessantes os debates em torno da narrativa. As crianças não destrinçam o real da ficção. Para elas, tudo o que está na obra é real. O Muenji (9 anos) além de ler “As aventuras de Ngunga”, concluiu a leitura da colecção do Diário de um Banana, de Jeff Kinney. A Doris (11 anos) o clássico “Alice no país das maravilhas” de Lewis Carroll que já foi tema de um filme.

Entusiasmada conta: “E lá foi ela descendo, descendo, como não havia mais nada para fazer, Alice continuou a conversar sozinha. “A Dina vai sentir muito a minha falta esta noite, acho eu!´(Dina era a gata.) Espero que se lembrem de lhe dar a tigela de leite à hora do lanche. Dina, querida, gostava bem que estivesses cá em baixo comigo!”.
E depois lembrou-se do gato que recebera de seu tio recentemente. “O gato chegou à noite e dia seguinte sumiu e até hoje ninguém sabe o destino”, disse solicitando um novo gato.

Já a mais velha do grupo, a Geo (14 anos) conseguiu ler mais de cinco livros. Tal como os demais, o que lhe marcou foi o livro de Pepetela “As Aventuras de Ngunga”.
Depois tentou mergulhar em “Todas as Crónicas” de Clarice Lispector. Lembrou de um trecho da obra “Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fracção de segundos a gente se vê como um objecto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.”

Lá vai ela tentando apreender o universo complexo do texto da Clarice Lispector. – Queixa-se mas prossegue incentivada pelos pais. Música e aulas complementam o dia-a-dia.
Dias inusitados levam à criatividade
Teresa Luís

Em meio à pandemia da Covid-19, tendo sido o confinamento social uma das medidas impostas para conter a propagação da doença, a criação do “programa infantil Só Notícias” foi uma aprazível surpresa proporcionada pelas minhas filhas, Maweth e Márcia Martins, de 15 e oito anos. Determinadas em driblar o tédio, criaram a brincadeira nos primeiros dias da implementação do Estado de Emergência. Ambas aproveitavam os tópicos dos principais serviços noticiosos para montar o “programa”.
“Mamã e Papá, nós temos os dados do coronavírus. Não precisam mais de esperar pelo Telejornal”, disse a Márcia para chamar a nossa atenção. 
Irrequieta, a Márcia tudo fez para ser a apresentadora. Sempre tranquila, Maweth assumiu a função de repórter. Apesar do lado engraçado do “programa”, aos poucos elas demonstraram um pouco do bichinho da minha profissão.

Depois de 20 dias, ambas deixaram de “exibir o programa”, era preciso encontrar outros motivos de interesse. Se antes eu fazia o papel de professora e psicóloga em regime de”part time”, com o actual quadro não há volta a dar, tenho de assumir essas funções a tempo inteiro.
Quando se trata de crianças é preciso muita criatividade para travar o aborrecimento.

Os jogos “stop” e “burrinho” tiveram a devida utilidade, mas não passou de sol de pouca dura. “Toda hora também esses jogos?!”, reclamam. A confecção de diferentes tipos de sobremesas é a actividade preferida nesta fase, pois, aproveitam para aprender a fazer doces e brincar com a farinha. Por outro lado, exige muita paciência para explicar, vezes sem conta, como devem ser feitos.

A limpeza da casa é para elas a pior das actividades. Com o gostinho pelos livros a despontar, a Maweth preenche parte das manhãs com leitura. A Bíblia ocupa o primeiro lugar. À tarde o foco recai para o “Udengue”, de António Jacinto.

Um personagem desperta-lhe a atenção. “Mamã, esse miúdo Janeiro é malandro yá”. Encerrada a leitura do “Udengue”, agora tem as atenções viradas para “As Minas de Salomão” de Eça de Queiroz. Para a Márcia tudo é perda de tempo, excepto quando está ligada aos canais Panda, Disney Júnior e SIC K.
Questionamentos do tipo “mas assim não podemos ir visitar a mãe no Marçal? (Perguntam, referindo-se à avó materna). Estado de Emergência, prorrogação, Situação de Calamidade Pública é o quê? Nunca mais vamos à escola? Porque o Papá sempre sai e nós não?” fazem parte da rotina diária.
Obviamente nem sempre tenho disposição para responder, principalmente quando já o fizera um dia antes.Por ser mais crescida, a Maweth consegue perceber algumas coisas, diferente da Márcia, inconformada com tudo. “Quando o sol baixar vamos ainda ver a rua. Nunca mais vi a rua”, reclama a mais nova. “Você trabalha? Só podem estar na rua aqueles que trabalham. Lê ali na televisão: Fica em casa”, responde a mais velha, para minha satisfação.

Experiências ganhas 
com o confinamento
Edna Mussalo
Com o confinamento a vida de muitos populares ganhou uma outra dinâmica e novas rotinas. As mães com filhos menores de 12 anos foram as mais protegidas, sendo-lhes dado o direito de ficarem em casa a 100 por cento, de modo que pudessem cuidar dos filhos e das famílias, em regime de exclusividade.
O confinamento, embora por motivo de pandemia, trouxe a muitas famílias um novo frescor e maior união. Muitas mães puderam ficar mais tempo com os filhos, corrigirem juntos as tarefas da escola ou actividades da creche.

Durante o confinamento, a vida agitada de uma cidade em transformação, como Luanda, também foi abrandada. Houve uma redução do corre-corre. As pessoas puderam olhar, de uma forma mais terna, para a família, em especial os filhos. O isolamento social está a servir para mostrar que não há nada mais importante que a família.
“A sala da minha casa
já não é a mesma”
Carla Bumba
Há quase quatro meses de confinamento social em casa devido à pandemia da Covid-19, um mal que assola o mundo desde Dezembro último, Carla Bumba hoje conhece melhor o comportamento dos seus dois filhos.

Aponta que durante os primeiros 15 dias do Estado de Emergência notou um comportamento diferente dos filhos, como o aumento da hiperactividade no seu dia-a-dia, pois os gritos e “lutas” entre as crianças eram constantes.
A jornalista conta que os filhos fazem muita bagunça em casa e durante os últimos tempos o apetite parece que duplicou e tornaram-se mais exigentes no que toca ao tipo de alimentação diária.

Nathaniel, o filho mais novo, de dois anos e nove meses, tem preferência pelos programas televisivos de desenhos animados. Natas, como é carinhosamente chamado, gosta de assistir aos desenhos animados de pé em frente à televisão. “Gosto de ficar aqui, mamã”, responde com um sorriso maroto.
“A sala da minha casa, já não é a mesma. Tornou-se, para os meus filhos, um campo de futebol ou até mesmo num parque de diversões”, disse Carla Bumba. Acrescentou que há dias em que, tendo acabado de arrumar a casa, “num abrir e fechar de olhos tudo volta a estar desarrumado”. Fico só a olhar, enternecida, sem sequer ter forças para me zangar – disse.

Fonte:JA/LA

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