Igrejas de 16 províncias do país retomam hoje actividades de culto público

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As várias confissões religiosas reconhecidas junto do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, dizem-se prontas para, a partir de hoje (24), retomarem as actividades de culto público nos mais distintos templos das 16 províncias do país.

Estimadas em mais de 80 denominações e milhares de fiéis, os líderes das igrejas desdobraram-se em garantir água corrente e sabão para higienização, toalhas de papel, álcool em gel, ventilação e distanciamento físico, além de medidor de temperatura à entrada dos templos. Passados cerca de 90 dias desde a Declaração do Estado de Emergência, em Março, devido à pandemia da Covid-19, a presente fase de desconfinamento, determinada pela Situação de Calamidade Pública, traz também novos desafios aos líderes e fiéis destas congregações religiosas.

Ao que se sabe, todas as igrejas estão obrigadas a fazer cultos de um máximo de duas horas e até 150 pessoas reunidas num só culto. Acima deste número, deve-se solicitar autorização, cedida depois de certificada a existência de condições para o cumprimento das regras exigidas. As referidas confissões religiosas garantem, por outro lado, que os cultos vão ser intervalados por sessões de pulverização e higienização dos espaços.

Além de Domingo, cada uma delas escolheu outros três dias da semana para fazer cultos matinais e nocturnos, sem comprometer a mobilidade dos crentes que se deslocam para pontos distantes dos respectivos locais de congregação. O reverendo Francisco Sebastião, representante legal da Igreja Assembleia de Deus Pentecostal, disse que pelas 16 províncias e municípios, onde estão presentes com 2.989 templos e acima de 2,4 milhões de crentes, hoje, quarta-feira, 24, apenas vai-se observar um Dia Nacional de Oração e Jejum.

Sobre os cultos, os 11.814 pastores de todas as igrejas ADP vão dirigir os actos de reabertura no Domingo, 29, auxiliados por evangelistas, anciãos, diáconos e diaconisas, em horários determinados por cada Ministério (Igreja autónoma responsável pela coordenação de outros centros pelos municípios). Conforme directrizes do Secretariado Geral desta igreja, órgão que apoia o funcionamento do representante legal, os presbíteros de cada província são os responsáveis pela fiscalização da existência de condições materiais para a abertura das respectivas igrejas, em estrita obediência às orientações do Governo.

O reverendo Francisco Sebastião confirma, no pós-confinamento, o regresso de uma igreja mais forte que se dedicou plenamente à oração e jejuns com milhares de fiéis, através das plataformas digitais. Por estes meios, também transmitiu-se e continuar-se-á a pregar o evangelho de Cristo e as 16 verdades fundamentais do seu credo.

Já para o presidente da Convenção Baptista de Angola, reverendo João César, as mais de 300 igrejas das 16 províncias no país, de mais de 70 mil membros baptizados, iniciam os cultos no Domingo. Para Luanda, logo que terminar a Situação de Calamidade, onde diz estarem mais de sete mil membros e 54 igrejas registadas, definiram, em princípio, três cultos diários de uma hora e meia, com início pelas nove horas.

O líder baptista esclareceu que a igreja poderá, ao Domingo, aumentar o número de cultos, caso se faça necessário. Com isso, garante, não se vai deixar ninguém sem cultuar e as listas e divisões de grupos estão de-finidas e afixadas nas respectivas igrejas. No mesmo alinhamento, a líder espiritual da Igreja Teosófica Espírita, Suzeth João, disse estarem criadas as condições para que o retorno aos cultos públicos decorra no estrito cumprimento à Lei e situação vigente.

No maior movimento religioso no mundo e em Angola, a Igreja Católica, não é diferente. Um comunicado da CEAST a que tivemos acesso detalha como cada uma das cerimónias deverá ser realizada. Dos cultos às cerimónias de baptismo e ordenação de novos sacerdotes, a Igreja Católica traz no seu ordenamento uma nova organização e adaptada às exigências do novo coronavírus.

Conforme adiantou um leigo paroquial, as instruções já distribuídas estão também disponíveis para cada padre orientar os seus fiéis, além de as mesmas estarem afixadas em locais visíveis das igrejas. Na visita efectuada ao Distrito Urbano do Morro dos Veados, do município de Belas, em Luanda, foi visível um aglomerado de igrejas que, com as novas imposições, passam a ter mais um desafio a cumprir.

Em 2019, por altura da operação resgate, foi deliberado o encerramento de igrejas em construção de chapas e com uma série de irregularidades, entre as quais a prova da titularidade do espaço. Alguns populares contactados pelos Jornal de Angola falam de igrejas em armazéns, sob contrato de arrendamento, que trocam de proprietários em poucos meses, ou seja, um armazém, que em Janeiro era da igreja x, em Junho já passou para a igreja y.

Covid faz renascer debates teológico-doutrinários

A pandemia da Covid-19 no seio das igrejas e círculos teológicos também está a servir de referência a estudos doutrinários. Por exemplo, muitas religiões defendem a Santa Ceia, um ritual cristão que consiste na partilha de elementos simbólicos (pão e vinho), feita numa taça onde todos bebem e o pão é distribuído pelo sacerdote responsável pela ministração.

Conforme explicou o estudante do curso superior de Teologia, o pastor António Pedro Libra, é bastante discutida a eficácia deste ritual, por representar, para muitos, um atentado às normas de higienização. Nas novas regras de celebração, as igrejas consentem todas em fazer esta tradicional cerimónia de santa comunhão em taças/cálices individuais e retiram do sacerdote a missão de dar o pão à boca do fiel (que passa a fazê-lo por si mesmo) ou de qualquer outro ministro fazer a sua distribuição.

Por outro lado, e conforme se constata em outras igrejas, disse, a entrada no templo sagrado é feita de pés descalços ou protegidos apenas por meias brancas (preferencialmente). Esta posição ortodoxa para uns e em claro desuso para outras confissões religiosas também foi trazida nas novas regras de algumas igrejas.

Segundo elas, para evitarem um provável transporte do novo coronavírus pelos sapatos, descalçar à entrada foi a saída encontrada. Há quem apenas introduziu um cobertor embebido em água, lixívia e outros desinfectantes, como tapete de entrada para a limpeza dos pés. No seio das igrejas, conforme disse-nos o teólogo, docente em cursos médios e básicos, começa-se a valorizar regras determinadas por Deus aos levitas, descritas no livro de Levítico, o terceiro da Bíblia Sagrada, no Antigo Testamento.

Uma clara reconquista é a diminuição de usuários dos altares numa só cerimónia e a não troca de microfones entre usuários. Também a distribuição de folhetos de papéis, uma prática introduzida pela reforma protestante nos cultos, começa a ser recomendado o abandono. Todas estas mudanças resumem a organização de culto em que a igreja saiba a sua liturgia sem precisar de mostrar por papéis e que cada um tenha o seu hinário e a sua Bíblia para acompanhar a pregação, estudo ou canto.

Biossegurança é um encargo das confissões

O director do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), Francisco de Castro Maria, anunciou terç-feira a reabertura hoje, dos lugares de culto com a estrita e rigorosa observância das medidas de biossegurança e distanciamento físico, mas a ministra da Saúde , Sílvia Lutucuta afirmou que em Luanda e Cuanza-Norte vão continuar encerradas.

Em declarações à imprensa, após ter apresentado o tema “Proliferação de denominações religiosas em África e em Angola”, no seminário de capacitação dirigido aos deputados, Francisco de Castro Maria referiu que a reabertura deverá ser feita mediante estrita observância das orientações do Decreto Presidencial nº 142/20, de 25 de Maio, que declara a Situação de Calamidade Pública.

“Estamos ainda num período difícil, mas o Executivo entendeu que, gradualmente, algumas esferas da sociedade pudessem funcionar com as condições de biossegurança que poderão garantir o funcionamento das actividades religiosas, depois deste longo período de paragem”, disse o director do INAR. Francisco de Castro Maria esclareceu que todas as condições de biossegurança são da inteira responsabilidade das próprias confissões religiosas, em colaboração com as entidades sanitárias e outras afins, para que possam adquirir equipamentos e instrumentos necessários.

O também docente universitário reconheceu a existência de algumas dificuldades na criação de condições, como orientam as regras gerais estabelecidas pelo Decreto Presidencial. “Acreditamos que algumas confissões poderão não ir a tempo de reunir as condições, mas a orientação foi dada aos líderes religiosos para que abram os lugares de culto. As que não tiverem condições criadas, devem abrir gradualmente”, afirmou.

Igrejas organizam-se para retorno aos cultos

Após três meses com as portas fechadas, devido às medidas restritivas impostas no âmbito do Estado de Emergência, decretado por causa da pandemia de Covid-19, as igrejas têm carta aberta para, a partir de hoje 24 de Junho, realizar os cultos colectivos. Prontas a cumprirem com o determinado no Decreto Presidencial 142/20, de 25 de Maio, muitas já têm criadas as condições para a prevenção do contágio da Covid-19.

Segundo o presidente do Conselho Geral de Programa da Igreja Metodista Unida de Angola (IMUA) Conferência Anual do Oeste de Angola, Vladimir Agostinho, a Igreja foi orientada a evitar aglomerações. O número de pessoas em culto não poderá ultrapassar as 150 pessoas, com garantia de espaçamento de dois metros entre uma e outra.

As portas e janelas dos locais de culto devem ser mantidas abertas durante a celebração e reuniões para que o ar seja renovado. O uso de papéis de boletins de culto deve ser evitado, o que reforça a necessidade da Internet e dos aplicativos de contacto colectivo. A Igreja orienta também aos celebrantes da Santa Ceia à lavarem as mãos publicamente antes da consagração dos elementos, devendo haver água em jarros para despejar nas mãos sobre uma bacia, na falta de água corrente nas torneiras.

Encoraja-as, neste tempo do cacimbo, a fazerem cultos ao ar livre, aos quais se aplica o limite de 150 pessoas, para se evitar o contacto. As ofertas e os dízimos devem ser levados ao altar resguardando um metro de distância entre as pessoas nas filas. Também orienta a reservar em cada culto cinco minutos para reforçar as medidas de prevenção contra a Covid-19 e que, temporariamente, sejam suspensos os cumprimentos que impliquem toque, como aperto de mãos e o abraço.

Os pastores e as pastoras são encorajados a desenvolverem cuidados especiais com idosos, pessoas de grupos que prefiram não ir ao culto, mas precisam de receber apoio espiritual e Santa Ceia em casa. Algumas igrejas adoptaram a realização do culto dominical dividido em dois horários, para evitar-se a aglomeração de muitos fiéis, com intervalo que será reservado para a higienização do templo.

O primeiro culto, afirmou o pastor local da IMUA, de Boa Esperança , Júnior Cassule, tem início às 8 e vai até às 9h30 minutos e o segundo começa às 10 horas e termina às 11h30 minutos. Numa primeira fase as crianças estarão ausentes.

Durante o Estado de Quarentena

Segundo o pastor Vladimir Agostinho, neste período, para mitigar as consequências da Covid-19, a Igreja e o Concelho das Igrejas Cristãs em Angola (CICA) realizaram cultos de orações e súplicas, acção de graças, concerto gospel solidário com o tema “tive fome e deste-me de comer, S. Mateus 25: 35”. O acto, que teve a transmissão em directo na Televisão Pública de Angola(TPA 1), Rádio Kairós e Rádio Ecclésia, teve como finalidade sensibilizar os fiéis, e não só, a juntarem-se e contribuírem para a causa solidária.

O director do programa assegurou que o Estado de Emergência e a Situação de Calamidade Pública ficarão na memória de milhares de famílias cristãs e em especial metodistas, que fizeram das suas casas a igreja dos crentes que mantiveram a vida de oração e leitura bíblica, da Rádio Kairós que esteve na linha da frente da informação sobre a actualização da informação sobre o novo coronavírus, fazendo chegar ao povo metodista e não só o alimento espiritual por meio da mensagem de pastores e pastoras que rezavam na oração e na divulgação da doce palavra do evangelho.

A Igreja fica com recordações do cuidado e o zelo das equipas da Televisão Pública de Angola que fizeram todo o possível para o culto chegar as casas, a manter a coesão e a saudade da vida na igreja. Fica ainda a marca da capacidade de mobilização das igrejas, que, mesmo com o distanciamento social, privilegiaram o bom funcionamento das classes durante esse tempo em que a pandemia ameaça a saúde e a vida dos cidadãos.

CEAST, cautelosa, apresenta normas para o novo contexto

Para garantir o regresso em segurança dos fiéis aos cultos religiosos, marcado para hoje, 24 de Junho, os bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) apresentaram segunda-feira, em Luanda, um caderno de Normas de Culto Público Católico no Contexto da Covid-19. Durante a abertura da conferência de imprensa, o arcebispo do Lubango, D. Gabriel Mbilingi, explicou que a retoma das missas está condicionada ao evoluir da situação epidemiológica em todo o território nacional.

“As coisas vão acontecer se as autoridades sanitárias chegarem à conclusão que o evoluir da epidemia permite a retoma das missas com a presença física dos fiéis nas comunidades”, disse o prelado. De acordo com o arcebispo católico, numa primeira fase estão autorizados apenas os adultos a frequentar os cultos religiosos, evitando qualquer exposição de menores de idade. “As dioceses estão orientadas a criar todas as condições de biossegurança para garantir o regresso dos fiéis aos cultos”, realçou.

O bispo da Diocese de Viana, D. Emílio Sumbelelo, a quem coube a missão de apresentar as “Normas de Culto Público Católico no Contexto da Covid-19”, disse que o documento, entre outras medidas, orienta a criação de equipas de saúde e protocolo local, que deverão ser formadas e informadas sobre as medidas de segurança a observar durante os cultos, bem como os cuidados a observar em relação à sinalização dos assentos livres e a ocupar, tendo em conta o distanciamento recomendado pelas autoridades sanitárias.

Quanto às filas para a comunhão, que passa a ser entregue na mão dos fiéis, bem como o ofertório, os bispos da CEAST orientam que as comunidades façam marcações no pavimento e se observe o devido distanciamento. Em relação à utilização dos arfais litúrgicos e vasos sagrados, a Igreja orienta as sacristias e as religiosas a criarem as necessárias condições de segurança.

Aos acólitos que passarem a intervir durante as cerimónias religiosas, a Igreja orienta o uso obrigatório de luvas e desinfecção regular das mãos. Em relação às cerimónias de baptismo, primeira comunhão e outros sacramentos, a Igreja estabelece o número semanal ou diário for elevado, deverão ser administrados de forma faseada nas semanas seguintes.

Já os noivos e as exéquias (óbitos) deverão seguir, escrupulosamente, as normas de segurança em vigor. À entrada dos templos recomenda-se a colocação de um pano embebido com lixívia em líquido e outro para secar os pés. Os bispos orientam, ainda, a desinfecção das superfícies utilizadas depois da sua utilização.

Os ministros extraordinários da comunhão em idade de risco estão desaconselhados a levar a comunhão aos doentes, devendo, para o efeito, solicitar os de menos idade e fora de risco. O reinício da catequese fica ao critério dos bispos, orientando a máxima observância das normas de biossegurança e distanciamento.

Os documentos, que contêm as normas de culto público católico, serão enviados a toda a jurisdição da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), mediante assinatura do termo de responsabilidade. Além dos dois bispos, presidiu à cerimónia D. Filomeno Vieira Dias, presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).

Corrida aos kits de biossegurança

Por estes dias, a busca pelos materiais de biossegurança alimenta um comportamento especulativo no mercado nacional. Longe das caridades e doacções dos que professam a fé, as empresas e vendedores particulares viram na procura das igrejas por termómetros, lixívia, álcool em gel e pulverizadores um novo “el dourado” para quem os tem em stock.

Por exemplo, o termómetro agora já vendido por 55 mil kwanzas, custava 90 mil há dois meses. Para quem vê na queda do preço um bom referencial, deve também preocupar-se com a durabilidade. Ou seja, a diferença de preços reflecte a qualidade de uns e outros materiais à disposição, segundo vendedores contactados pelas redes sociais.

A maioria em chinês e sem tradução em português nos catálogos, os clientes tentam saber por que razão não serem credenciadas entidades oficiais e com preços vigiados para que se possa comprar materiais regulamentados sem provocar-se uma onda inflaccionista. Um certo cliente, que não se quis identificar, comprou 10 termómetros ao preço de 70 mil kwanzas cada. Passados dois dias, apercebeu-se de um outro vendedor da mesma marca e referência de aparelho com um preço de 55 mil.

Para ele, a diferença de 15 mil kwanzas a olhar para as quantidades compradas chega a ser de uma injustiça total. Já o sabão, na referência azul (a mais recomendada), é também por isso mesmo a mais escassa, rara e cara. A barra que era vendida por 1.000 kwanzas agora já está a 2 mil em determinados fornecedores, uma subida de 100 por cento.

Igual tendência continua a observar-se no custo dos frascos de álcool em gel, vendidos em supermercados, farmácias e lojas de conveniência. Apenas o preço da lixívia estabilizou-se, havendo quem venda um recipiente de 5 litros por 850 kwanzas. Os pulverizadores custam um mínimo de 30 mil kwanzas, embora haja quem fale em negócios de corredores com custos entre sete e 14 mil kwanzas.

Com tudo isso, as ofertas de serviços pelas empresas de desinfecção também crescem e são ainda mais caras. Os fatos são vendidos por preços especulativos, à semelhança do que ocorre com os demais integrantes do kit de biossegurança.

Fonte: JA/LA

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