Hidrocefalia: um dos «males» que ainda enfermam milhares de crianças no país

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Pelo menos 10 mil crianças são, anualmente, diagnosticadas com hidrocefalia. Deste número, apenas 300 a 400 chegam a ser intervencionadas cirurgicamente. Pacientes queixam-se de discriminação e abandono. Há poucos médicos especialistas. Único e maior centro neurocirúrgico de tratamento da doença reduziu serviços por falta de verbas. Essas dificuldades colocam Angola como o único país da SADC que ainda depende de caridade para tratá-la.

Numa altura em que as atenções das autoridades sanitárias do país estão voltadas para um combate «cerrado» à Covid-19, pandemia que já causou a morte de seis pessoas e infectou, até ao momento, mais de 140 no país – tendo «forçado» o Governo a desembolsar, em três meses, mais de 40 mil milhões de kwanzas-, pacientes com hidrocefalia, na sua maioria crianças com menos de cinco anos, continuam a queixar-se de “abandono” e “discriminação” por parte do Executivo e das famílias.

Estima-se que apenas 300 a 400 crianças, entre as 10 mil diagnosticadas com hidrocefalia anualmente, são intervencionadas em Luanda – a única província, à excepção do município do Lubango, na Huíla, onde trabalha a maioria dos neurocirurgiões.

Os municípios de Viana, Cacuaco, Kilamba-Kiaxi, em Luanda, são, de acordo com as autoridades sanitárias, as zonas do país que lideram o número de casos de crianças portadoras da doença.

A maioria dos doentes que vivem com hidrocefalia não é tratada por razões diversas: falta de capacidade financeira nas famílias, para custear as intervenções cirúrgicas, fraca resposta dos hospitais públicos à doença (grande parte dos pacientes do país é atendida somente por dois médicos-neurocirurgiões no Hospital Pediátrico «David Bernardino») e redução de atendimento, por falta de verbas do único Centro Neurocirúrgico de Tratamento da Hidrocefalia (CNCTH), localizado no bairro Kifica, em Luanda. Sem condições para se deslocar a Luanda, algumas famílias, sobretudo das províncias do Bié, Kwanza Norte, Uíge, Huíla e Kwanza Sul, optam por tratamento tradicional, realidade que, na visão de médicos especialistas, “não é o caminho certo para tratar a doença”. Nesses casos, segundo relatos de médicos, a maioria dos doentes vai a óbito.

No CNCTH, o custo de cada cirurgia é de 200 mil kwanzas, quantia que a maioria das famílias que procuram pelo centro diz não dispor. O centro «sobrevive» de doações de entidades nacionais e internacionais. Quando não há apoio dessas instituições, as cirurgias são limitadas. Operam-se poucas crianças ou nenhuma. É por conta disso que a direcção do CNCTH vem defendendo, há anos, que as cirurgias sejam gratuitas, uma intenção que só pode materializar-se com o apoio do Estado.

Entretanto, a direcção do centro destaca que, em relação à parceria com o Ministério da Saúde (MINSA), há uma «luz no fundo do túnel». Por exemplo, recentemente, o MINSA colocou uma técnica de laboratório à disposição do CNCTH e tem ajudado, às vezes, com alguns fármacos. Porém, a direcção do centro espera por mais apoios, de modo a atender aos pacientes que diariamente procuram pela unidade de saúde.

Estigma e discriminação: outras barreiras à cura

Caracterizada como doença craniana que leva a uma inflamação da cabeça, devido ao acúmulo excessivo de líquido, a hidrocefalia é ainda uma patologia desconhecida pela maioria das populações. Por isso, as pessoas que padecem dessa enfermidade costumam ser também vítimas de exclusão social.

Entre as principais barreiras sociais ao tratamento e à recuperação dos doentes de hidrocefalia, destaca-se o estigma e a discriminação. Esses dois factores são, também, responsáveis pelo número considerável de famílias que optam por tratar a hidrocefalia como “coisa de outro mundo”. Nalgumas regiões, as crianças que vivem com esta doença são acusadas de feiticeiras, sereia e de “pessoas do mal”.

«Fiquei 8 dias nos cuidados intensivos, onde vi muita gente morrer»

Hermânio Samuel foi diagnosticado com hidrocefalia aos 7 anos de idade, em 2004. Em conversa com o Novo Jornal, o jovem, hoje com 23, contou as dificuldades por que passou desde a descoberta da doença até ser operado, no CNCTH, em 2009, quando tinha 11 anos.

“Não contraí a hidrocefalia ao nascer, mas aos 7 anos de idade, por conta de uma queda que tive enquanto brincava. Daí começou-se a verificar anomalias no funcionamento normal do meu organismo, como baixa percepção e mau funcionamento dos membros superiores e inferiores. Aos 11 anos, perdi todos os movimentos dos pés”, lembra.

Por conta do seu estado de saúde, na altura teve de ser submetido a uma operação.

“Fiquei oito dias nos cuidados intensivos, onde vi muita gente morrer. Graças a Deus, fui um dos sobreviventes da hidrocefalia”, afirma eufórico.

Fonte: NOVO JORNAL/BA

 

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