Governo apresenta plano em memória das vítimas de conflitos políticos

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GOVERNADOR DE BENGUELA, RUI FALCÃO

O plano de reconciliação em memória das vítimas de conflitos políticos em Angola, de 11 de Novembro de 1975 a 04 de Abril de 2002, foi apresentado hoje, quarta-feira, à sociedade civil, nesta cidade, em acto orientado pelo governador da província, Rui Falcão Pinto de Andrade.
Na ocasião, o governante informou que a criação desta instituição visa dois objectivos gerais: criação de uma plataforma de abordagem dos pendentes de um passado doloroso que os angolanos viveram e se comprometem a ultrapassar e necessidade de diálogo convergente, no sentido da paz, reconciliação e da tranquilidade.
Segundo defendeu, estes objectivos têm vindo a ser seguidos há algum tempo, porém, sem que houvesse uma estrutura que pudesse trazer à sociedade, de forma organizada, os resultados desejados.
Por essa razão, disse, o titular do poder executivo entendeu criar essa comissão nacional que começa agora a implementar o plano traçado, integrando todas as sensibilidades do país.
Sublinhou ainda que, tendo em conta os objectivos gerais, foram também definidos quatro outros passos a dar para tratar das famílias que sofreram de todos estes males, cujo número é grande, em função do longo período em análise, nomeadamente tratamento social, justiça social, reconciliação e historicidade.
Evocou igualmente o princípio do perdão, argumentando que o programa ao contrário de apontar o dedo seja a quem for, visa abordar os factos com realismo.
Esse perdão vai surgir do entendimento “perene” das questões, pois não haverá factos mais ou menos importantes. Todos os momentos difíceis vividos são importantes, não podendo, por isso, perdurar qualquer mágoa.
Para Rui Falcão, independentemente da análise individual, interessa a constatação e a aceitação do facto e, baseado nesta verdade, ter-se-á o perdão e a reconciliação.
Tudo isso, defende o governante, só se conseguirá com base no princípio da cidadania e do Estado de Direito, onde, acima de tudo, encontra-se a Constituição.
Informou que este processo de reconciliação será apadrinhado por um conjunto de legislação nacional e também por princípios do continente africano que, como se sabe, já viveu inúmeras experiências do género.
Igreja propõe criação de “Fundo Memorial” de apoio às vítimas dos conflitos
O Conselho das Igrejas Cristãs de Angola (CICA) propõe, entre outras acções, a institucionalização de um “Fundo Memorial” de apoio às vítimas dos conflitos, para além do consequente levantamento e registo de dados históricos sobre o passado do país.
Silvestre N’jilaúlo, representante do CICA, apresentou quatro propostas como contributo ao plano de reconciliação nacional: “Diálogo sincero, franco e inclusivo, liderado pelos três partidos históricos – MPLA, FNLA e UNITA” e “Declaração nacional Solene de reconhecimento e assumpção pelos partidos políticos históricos da responsabilidade dos erros cometidos, antes e depois da independência nacional”.
A “Confissão em culto público nacional de perdão à nação pelos erros e danos do passado, para uma “destraumatização” nacional”, bem como “Criação de fundo memorial de consolação a favor das vítimas dos conflitos”, complementam as propostas.
Segundo o responsável, a luta pela proeminência política gerou um ambiente de antagonismo entre os movimentos que, apesar de organizações de massas, levaram os povos de Angola a marcas muito profundas, cujas feridas reclamam uma cura definitiva, o que desde cedo impunha o reconhecimento dos erros e consequente pedido de perdão.
Lembrou que, nestes conflitos, as igrejas e suas infra-estruturas não foram poupadas, perdendo quadros (obreiros) e meios materiais que serviram de escolas de formação de quadros para o país, cujas memórias reclamam por reabilitação.
Para o cristão, a reconciliação caminha de mãos dadas com o perdão, aliás essa foi sempre a mensagem transmitida pela igreja – perdão e reconciliação entre os homens, por isso o CICA felicita o Presidente da República, João Gonçalves Lourenço, pela iniciativa que a todos deve engajar.
Lembrou o bispo sul-africano Desmond Tutu, que dizia “ a minha humanidade está ligada à sua, porque só podemos ser humanos juntos”, pelo que insistiu na tese segundo a qual na vida deve haver coragem para o reconhecimento e assumpção de erros.

Monumento em memória às vítimas de conflitos

Domingas da Cruz, membro da Comissão Nacional de Apoio às Vítimas de Conflitos Políticos, que interveio em nome do coordenador nacional, Francisco Queirós, ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, informou que as autoridades da província deverão erguer, em local a indicar, um “Memorial” em alusão às vitimas, no qual todos deverão se rever.
Mais adiante enumerou os princípios que norteiam o plano em alusão, defendendo que isso deve envolver todas as franjas da sociedade.
Numa mensagem lida na ocasião, o Conselho Provincial da Juventude disse que o país não pode construir o seu futuro sem que olhe para o passado dos seus melhores filhos, por isso, essa homenagem que se atribui às vítimas afigura-se como um marco no resgate do passado recente, em prol de uma Angola mais unida e reencontrada com a própria história.
Disse que os jovens sempre estiveram, em todos os tempos, na linha da frente, por essa razão, continuará a advogar, a pressionar e a exigir que se invista nos jovens, em todos os níveis.
Advoga ainda que seja dada atenção às famílias daqueles que protagonizaram os processos de luta no país, proporcionando as melhores condições sociais básicas, para que no final se sinta a razão destas perdas.
Depois das intervenções seguiram-se momentos culturais que antecederam as contribuições da plateia, para o enriquecimento do plano.

Fonte: Angop/AF

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