Doentes estão a retomar tratamento contra a lepra

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Celestino Manuel, 41 anos, sentado num banco corrido da sala de espera, aguarda por uma consulta para retomar o tratamento contra a lepra, suspenso por razões pessoais, há cerca de 17 anos, no centro médico da leprosaria de Camundambala, arredores da cidade de Saurimo.

As lesões nos membros superiores e coceiras constantes confirmam a progressão da doença, que geriu sem qualquer assistência durante dez anos, na sede municipal de Xá-Muteba, província da Lunda-Norte, terra natal, onde regressou alegadamente em obediência às ordens militares, baixadas pelo superior hierárquico. Um misto de resignação e ânsia pela cura despontam do enfermo, que responde à reacção do organismo com coçadelas seguidas, antes de aceder à consulta para obter a cura desejada nos próximos tempos, animado por companheiros de enfermaria no passado, devidamente curados, na sequência do cumprimento integral da medicação prescrita. 

Abandonado pela esposa inconformada com “o visual que reduziu a capacidade física”, realiza uma travessia pelo deserto, sem a animadora presença de três filhos, deixados em lágrimas, no momento da partida, sem dinheiro, para enfrentar o quotidiano, mantendo a esperança de “um dia retomar a relação quebrada, com a esposa.”
O enganoso cenário de abandono da localidade, com uma dezena de casas de construção definitiva alinhadas e com o branco encardido na pintura, esconde um estilo de vida humilde, aceite por famílias que transpuseram o dilema de uma doença secular, tida por “maldição”, responsável pelo isolamento.
A agricultura de subsistência, ao redor das casas e outras áreas próximas, garante a sobrevivência da comunidade, que, vez ou outra, recebe apoios de instituições filantrópicas, entidades singulares e da Igreja Evangélica dos Irmãos em Angola (IEIA), proprietária da zona, onde vivem missionários, que dão apoio ao sector da Educação, além de outras iniciativas de assistência social. O chefe do centro sanitário, António Estêvão, com apoio de alguns técnicos, cuida de 14 novos portadores da doença, notificados de Janeiro a Setembro, na sua maioria provenientes da vizinha província da Lunda-Norte e da sede municipal de Saurimo.
A procura de assistência permite em média diária uma afluência de 20 utentes, para exames de rotina, recepção de medicamentos e consultas. São também efectuados exames para diagnosticar malária, doenças de fórum respiratório, febre tifóide, entre outras, segundo António Estêvão.

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