Coronavírus actua contra o distanciamento social

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Temos ouvido dizer que uma das principais formas de prevenção do coronavírus é o distanciamento social.

Maior aberração não podia haver, porquanto o coronavírus veio promover exactamente o oposto ao distanciamento social.

Temos ouvido dizer, em várias línguas, que uma forma de prevenção do novo coronavírus é o distanciamento social, entendido como o afastamento físico entre as pessoas.

Por outras palavras, pretende-se que as pessoas deixem de se aproximar em demasia, deixem se abraçar e beijar com frequência e, até, deixem de apertar as mãos como forma de saudação, de modo a diminuírem a probabilidade de contágio do mais recente coronavírus.

Como a intenção é reduzir de alguma forma o convívio social com proximidade física, emprega-se o termo distanciamento social.

Como bons angolanos que somos, ouvimos o termo e limitamo-nos a repeti-lo, como se estivéssemos a dizer a maior das verdades.

Pois em realidade, estamos a repetir a maior das asneiras.

E não é este o único absurdo que repetimos, até na comunicação social. No próximo texto abordarei um outro absurdo associado à doença provocada por este vírus.

*O que significa o termo distanciamento social?*

Vejamos então o significado de um dos termos mais utilizados ultimamente  distanciamento social.

Trata-se de um termo sociológico, que é utilizado para significar o(s) sistema(s) de hierarquias e distâncias que a sociedade impõe aos indivíduos, estratos e grupos sociais.

O distanciamento social está relacionado, dentre outras, com diferenças de estatuto (classes sociais ou estratificação social), diferenças étnicas, diferenças raciais ou diferenças de género. Pode também estar associado a diferenças espaciais, condicionadas estas por diferenças e distâncias em relação à estratificação social ou à estrutura de classes.

O distanciamento social pode estar relacionado com o distanciamento físico, tal como ocorre por exemplo em caso de distanciamento geográfico no quadro da estratificação social: bairros de asfalto, bairros no areal e bairros de habitação precária.

Mas é preciso considerar que o distanciamento social nem sempre implica distância física.

Por exemplo, há claro distanciamento social entre o patrão e o seu empregado doméstico, apesar de ambos conviverem no dia-a-dia e até poderem viver debaixo do mesmo tecto ou em habitações contíguas.

Por outro lado, temos de considerar na análise o papel das redes sociais, que apesar da distância física (e até social), aproxima sobremaneira as pessoas.

As redes sociais vieram aumentar enormemente o convívio social. Vieram nomeadamente provocar o aumento da sociabilidade entre pessoas de diferentes estratos sociais à escala global – pessoas que, de outro modo, não se relacionariam como “iguais” ou como “aparentemente iguais”.

*O que ocorre com o coronavírus?*

 

Prestado o devido esclarecimento, vejamos a seguir o que ocorre então com a medida de prevenção do coronavírus descoberto em Dezembro de 2019.

A indicação das autoridades sanitárias é de haver redução drástica da proximidade física entre as pessoas e, também, redução das manifestações de cortesia, apreço e carinho que envolvam contacto físico.

Por outras palavras, pretende-se que as pessoas passem a manter alguma distância física entre si.

Referem-se a proximidade física, contacto físico e distância física.

Como se vê, isso nada tem a ver com distanciamento social, tal como o termo é percebido e utilizado em Sociologia e nas Ciências Sociais.

Distanciamento físico é uma coisa e distanciamento social, outra completamente diferente.

Portanto, a recomendação das autoridades sanitárias é realmente de passar a haver distanciamento físico entre as pessoas, de modo a diminuirmos a possibilidade de propagação deste coronavírus.

Assim sendo, *recomenda-se neste caso que se passe a utilizar o termo “distanciamento” ou “distanciamento físico”, deixando de se utilizar erradamente o termo “distanciamento social”.

Até porque, por incrível que pareça, este coronavírus está de facto a provocar uma maior aproximação social entre as pessoas (ou um menor distanciamento social).

Adoecem e morrem, tanto as pessoas dos bairros ricos, quanto as dos bairros pobres. Apesar das diferenças sociais que os separam, uns e outros encontram-se nas unidades sanitárias, à procura de uma coisa aparentemente insignificante, mas cuja falta (causada pela ação do vírus) provoca a uns e outros a morte: oxigénio.

Paulo de Carvalho

5/5/2020

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