Belchior da Silva: “Temos de deixar de enviar amostras para laboratórios de outros países”

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A vida militar, onde andou durante 35 anos, já o encontrou como professor universitário. Formado na Universidade Agostinho Neto, especializou-se em Inglaterra, terminou o mestrado na Alemanha e prepara-se para concluir o doutoramento em Saúde Pública. Só com o Estado de Emergência e a requisição civil dos quadros do sector foi chamado a participar no combate à Covid-19. Belchior da Silva, agora dedicado apenas à academia (reformou-se das FAA, em 2019), defende que é impossível travar o mercado informal. E acredita que o país, que já enfrentou diversas epidemias, deve encarar o novo coronavírus como um sério aviso: é urgente olhar para os cuidados primários de saúde com maior seriedade.

Que balanço faz do Estado de Emergência e do número de infectados de Covid-19 em Angola?

Nós temos de analisar esta situação no quadro das preocupações da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) e não só. Vários peritos internacionais em saúde pública e investigação científica prognosticaram para África uma situação de catástrofe. Eles tinham as suas razões. Porque em África temos os sistemas de saúde mais débeis e temos condições de vida que também não são as melhores. Principalmente nas grandes cidades, onde se concentram enormes aglomerações de pessoas (nos ditos bairros suburbanos, periféricos e nos musseques), onde não existe uma urbanização conveniente, onde não existem sistemas de saneamento, de distribuição de água, onde existem muitos mercados informais e, portanto, onde o índice de pobreza é muito elevado. Também a iliteracia e a deficiência de educação são muito grandes. Todos esses especialistas previram que em África, com o alto nível de infecciosidade que o vírus apresenta, seria o caos. Continuamos ainda a sentir uma grande preocupação com África.

Qual é a razão para termos em Angola, até ao momento, poucos casos confirmados de Covid-19, quando comparados com outros países, alguns deles com mais recursos e melhores sistemas de saúde?

Relativamente ao nosso caso e ao número de infectados que registamos, penso que resultam da intervenção em tempo oportuno – encerramento de escolas, aeroportos, confinamento social, distanciamento social, estado de emergência, toda a advocacia que tem sido feita sobre a doença. As medidas permitiram que a previsão catastrófica não tenha sido concretizada. Temos um número reduzido de casos confirmados porque tomamos medidas atempadas. É para isso que existem os sistemas de vigilância epidemiológica. Com a informação correcta e no tempo certo, o decisor tem de transformar isto em acções concretas. Isto permite-nos estar mais ou menos equilibrados e não ter aquele quadro catastrófico que é importante evitar. Porque nós já temos muitas doenças infecciosas que precisam dos serviços de saúde. Não é recomendável juntar a Covid-19 a este quadro endémico.

Mesmo na região Austral, apesar do número de casos continuar a subir, registamos uma baixa incidência. Na época seca e mais fria, que está a começar, devemos esperar por um maior número de casos positivos?

É preciso analisar vários prismas. Em primeiro lugar, até à data os vários estudos publicados não demonstram claramente que as temperaturas mais elevadas geram uma diminuição de pessoas infectadas. Porque esses estudos demonstram que, mesmo que o vírus seja afectado pelos raios ultravioleta emitidos pelo sol, a humidade facilita a sua propagação. Nós estamos a ver os países da África do Norte, por exemplo, onde as temperaturas são altas e apresentam um elevado número de casos positivos. Não há ainda uma informação precisa de investigação científica. Mas é verdade que há uma relação entre as temperaturas mais baixas e o surgimento de doenças respiratórias. Isto acontece em todo o mundo e em toda a parte. Daí a nossa preocupação em tentar atenuar a pandemia nesta fase, para que não se expresse na estação mais fria, que começa daqui a poucos dias.

A ligação entre o clima mais frio e as doenças respiratórias é de senso comum. Quase todas as pessoas percebem isto?

Exacto, toda a gente sabe. Mas a influência do clima e da temperatura em relação ao novo coronavírus ainda precisa de mais investigação científica. Há muita discussão sobre o tema. Por exemplo, os dados que existem dizem que o vírus não resiste a temperaturas superiores a 37 graus. Por isso, as medidas de contenção, tomadas em tempo oportuno, têm um impacto maior no combate ao vírus do que o clima. A Namíbia também tomou medidas rapidamente, apesar de ser uma população reduzida (cerca de 2 milhões de habitantes). Mas há outros prismas que devem ser analisados.

Quais?

A capacidade que os países têm para lidar com os casos positivos. Aqui entram outros factores: que procedimentos estão a utilizar no tratamento dos doentes? As diferenças de tratamento variam de país para país, por exemplo, a Alemanha tem uma taxa de recuperação fenomenal dos pacientes infectados. Por ironia, tem uma grande relação com a África do Sul, que também apresenta uma taxa de recuperação fenomenal. Qual é o protocolo que eles estão a adoptar para cuidar dos doentes? Muitos países isolam-se e não partilham este tipo de informação. Sabemos que há um conjunto de medicamentos mais adequados, como a polémica cloroquina ou os retrovirais. Os casos positivos, tratá-los e isolá-los, para que seja possível conter a epidemia. Os chineses fizeram algo que só uma potência em termos económicos e de saúde pode implementar: eles efectuam exames caríssimos, a chamada tomografia computadorizada. Instalaram os equipamentos em camiões e foram à procura de quem contactou com pessoas infectadas. Eles produzem o referido exame no próprio local. Isto é impensável, mas os chineses chegaram a este ponto, têm laboratórios de alto nível em todos os cantos do país. Até em centros e postos de saúde. É outra realidade. A China não implementou os testes rápidos.

Em Angola, qual é a melhor estratégia para alargar a testagem da população?

Com menos possibilidades financeiras e menos desenvolvimento, podemos instalar novos laboratórios de alto nível. Neste momento, estão a funcionar ou em vias disso mais três instalações fora de Luanda. Mas, para a nossa realidade, impõe-se o uso de testes mais expeditos. E que até possam ser utilizados pelos profissionais que não exercem nos laboratórios de alto nível. Se testarmos uma boa parte da população, podemos ter a dimensão real ou uma fotografia mais aproximada da magnitude da doença. Sobretudo se tivermos em conta a nossa realidade: mesmo em confinamento, as pessoas têm de andar na rua, de procurar os mercados informais, por causa do elevado nível de pobreza.

Tem sido uma das maiores dificuldades no combate à pandemia no país: a maioria das famílias depende do mercado informal, do pequeno negócio de rua, por isso não tem possibilidade de se manter em casa. Qual a melhor forma de enquadrar estas pessoas e como devemos preparar a reabertura da economia? Quais são as medidas mais adequadas?

É uma situação muito difícil. Não podemos proibir essas pessoas de desenvolverem a actividade informal, que é de subsistência. De maneira nenhuma. A condição que se põe aqui é mesmo a testagem, precisamos de testar o máximo possível para separar os doentes e tratá-los. Alguns países africanos, como o Senegal, não adoptaram o Estado de Emergência. Esta rede de actividades económicas informais é quase impossível de controlar. Podemos minimizar o quadro, com educação, comunicação abundante, informação, distribuição e massificação do uso da máscara, do álcool gel, do sabão, até haver financiamento para cada um sair à rua com o seu frasco para limpar as mãos e a sua máscara pessoal. Mas parar estes movimentos não é uma possibilidade.

Mas sem pormenores sobre os procedimentos ou protocolos de tratamento…

Qual é de facto o protocolo que está a ser utilizado na Alemanha e na África do Sul? Não sabemos. O que podemos afirmar é que as taxas de recuperação naqueles dois países são espantosas. Quase 70 por cento dos casos positivos estão recuperados. A troca de informações sobre os protocolos que eles utilizam seria muito importante.

Pelo que sabemos até ao momento, não havendo vacina nem tratamento adequado, a testagem é fundamental para identificar os locais com maior incidência de casos e isolar os doentes. Se fizéssemos mais testes, encontraríamos mais casos positivos?

A testagem é importante, principalmente para países que têm poucos recursos laboratoriais de alto nível, onde são produzidos os testes mais complexos. Tendo esta limitação, é necessário encontrar outros procedimentos de testagem. Os testes servem para identificar os casos positivos, tratá-los e isolá-los, para que seja possível conter a epidemia. Os chineses fizeram algo que só uma potência em termos económicos e de saúde pode implementar: eles efectuam exames caríssimos, a chamada tomografia computadorizada. Instalaram os equipamentos em camiões e foram à procura de quem contactou com pessoas infectadas. Eles produzem o referido exame no próprio local. Isto é impensável, mas os chineses chegaram a este ponto, têm laboratórios de alto nível em todos os cantos do país. Até em centros e postos de saúde. É outra realidade. A China não implementou os testes rápidos.

Em Angola, qual é a melhor estratégia para alargar a testagem da população?

Com menos possibilidades financeiras e menos desenvolvimento, podemos instalar novos laboratórios de alto nível. Neste momento, estão a funcionar ou em vias disso mais três instalações fora de Luanda. Mas, para a nossa realidade, impõe-se o uso de testes mais expeditos. E que até possam ser utilizados pelos profissionais que não exercem nos laboratórios de alto nível. Se testarmos uma boa parte da população, podemos ter a dimensão real ou uma fotografia mais aproximada da magnitude da doença. Sobretudo se tivermos em conta a nossa realidade: mesmo em confinamento, as pessoas têm de andar na rua, de procurar os mercados informais, por causa do elevado nível de pobreza.

Tem sido uma das maiores dificuldades no combate à pandemia no país: a maioria das famílias depende do mercado informal, do pequeno negócio de rua, por isso não tem possibilidade de se manter em casa. Qual a melhor forma de enquadrar estas pessoas e como devemos preparar a reabertura da economia? Quais são as medidas mais adequadas?

É uma situação muito difícil. Não podemos proibir essas pessoas de desenvolverem a actividade informal, que é de subsistência. De maneira nenhuma. A condição que se põe aqui é mesmo a testagem, precisamos de testar o máximo possível para separar os doentes e tratá-los. Alguns países africanos, como o Senegal, não adoptaram o Estado de Emergência. Esta rede de actividades económicas informais é quase impossível de controlar. Podemos minimizar o quadro, com educação, comunicação abundante, informação, distribuição e massificação do uso da máscara, do álcool gel, do sabão, até haver financiamento para cada um sair à rua com o seu frasco para limpar as mãos e a sua máscara pessoal. Mas parar estes movimentos não é uma possibilidade.

Máscaras para os pobres devem ser gratuitas

No início da pandemia, não se recomendava o uso generalizado de máscaras, no entanto, durante o Estado de Emergência, o Governo implementou a obrigatoriedade de uso em locais fechados (mercados, locais de trabalho e outros). Qual é a sua opinião?

Isso foi um erro da OMS, que foi imediatamente refutado pelos chineses. O vírus de uma pessoa infectada, que propaga a doença quando tosse, por exemplo, permanece na atmosfera. O vírus percorre uma determinada distância e depois cai no chão. Sempre que eu estiver num ambiente fechado tenho de usar a máscara. É uma norma que tem de existir. É obrigatório. Sempre que me aproximar de alguém, é mandatório usar a máscara no rosto, porque essa pessoa pode estar infectada. Se eu estiver infectado, a máscara também protege as outras pessoas. Quando estou sozinho, num ambiente aberto, sem alguém ao redor, não preciso de máscara. Mesmo que tenha passado um doente por aquele local, as gotículas já caíram no chão. Devido à sua densidade, raramente ficam a pulular no ar. Daí o distanciamento recomendado ser de um metro, isto está estudado e está perfeitamente claro em ensaios laboratoriais.

Neste caso, voltamos aos efeitos da pobreza, porque a maioria não tem dinheiro para usar máscaras descartáveis.

Penso que para as comunidades mais pobres, devíamos pensar numa solução para disponibilizar máscaras que não sejam descartáveis, mas que possam ser lavadas, engomadas e utilizadas no dia seguinte. As máscaras para as comunidades mais pobres deviam ser garantidas de forma gratuita. Já não digo o álcool gel, mas podíamos também encontrar uma fórmula qualquer mais barata, talvez com lixívia, para que cada cidadão transportasse o seu frasco pessoal e desinfectasse frequentemente as mãos até chegar a casa.

As pessoas com mais possibilidades já adoptaram estes hábitos.

Totalmente, isso é visível. Estas medidas devem ser potenciadas.

Alguns especialistas em saúde pública têm criticado a resposta internacional ao novo coronavírus. É?quase inexistente a coordenação entre as diferentes instituições e regiões do mundo, a falta de liderança chega a ser assustadora, situação que parece ser errada. Como analisa a reacção à pandemia de Covid-19?

A Covid-19 vai fazer com que o mundo inteiro olhe para estes processos epidémicos de maneira diferente. Tivemos epidemias na idade média, que mataram milhões de pessoas. Esse tempo acabou, depois veio a peste negra, a peste branca da tuberculose e por aí fora. Mas depois houve uma contenção neste tipo de eventos porque os países desenvolveram-se. Foram também descobertas as vacinas para a varíola, tuberculose, febre amarela, também para a peste há medicamentos efectivos. Tudo melhorou e o mundo ficou descansado. Os alertas começaram com a epidemia de ébola, em 2011, que chegou aos 22 mil casos positivos e 11 mil mortos. Mas aí também apenas um caso ou outro foi para a Alemanha, para os EUA, para os países ricos.

Como era em África, a tendência foi desvalorizar…

Pois! Eles pensavam que estavam longe dos problemas, afirmaram uma certa auto-confiança devido aos seus sistemas de saúde. Não se atemorizaram e pensaram que podiam tratar os eventuais casos que lá chegassem. Mas esta relação do homem com o ambiente, que vários especialistas vêm alertando há muitos anos, tem os seus riscos. O ser humano tem de saber conviver com o meio ambiente, porque os bichinhos também têm as suas defesas, que não são iguais às dos humanos. Mas insistimos nesta relação até na dieta alimentar. O novo coronavírus tem uma característica particular: a sua difusão massiva com efeitos à escala mundial. Portanto, todo o mundo vai aprender esta lição. Não basta ter um bom sistema de saúde. O Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) da Inglaterra era do melhor que havia no mundo, eles introduziram a figura do médico de família há muito tempo. O sistema cubano também é muito bom. Mas depois observamos grandes debilidades em países ricos como os EUA, que ainda por cima cancelaram o chamado “Obamacare” (que garantia um seguro de saúde universal, agora só quem trabalha tem acesso aos serviços médicos). Neste momento, uma série de americanos não tem como pagar os seus cuidados de saúde. Depois restam os países menos desenvolvidos, onde esta pandemia pode ajudar a potenciar os cuidados primários de saúde. As doenças endémicas e epidémicas precisam de ser tratadas ao nível dos cuidados primários de saúde, que devem actuar ao lado de um sistema de vigilância epidemiológica.

Que lições devemos retirar para Angola?

Já tivemos muitas epidemias: marburg, cólera, pólio, febre amarela. Os sistemas de vigilância epidemiológica, não só em Angola, mas em todo o mundo (particularmente no continente africano), têm de ser optimizados e potenciados, sobretudo na capacidade laboratorial. Quando começam a surgir os casos positivos, se tivermos laboratórios de alto nível, podemos, rapidamente, testar a população e isolar os doentes. Significa que é mais fácil conter as epidemias. É fundamental. Temos de deixar de enviar amostras para laboratórios de outros países. Estamos a falar de uma máquina que custa 50 ou 100 mil dólares. Todas as nações podem comprar duas, três, quatro, cinco ou seis máquinas. Temos de nos preparar, porque há especialistas que prevêem o surgimento de epidemias muito mais graves do que a Covid-19.

Estas questões de saúde pública, no fundo, são de segurança nacional. Se dependemos de um laboratório no exterior para controlar epidemias, significa que o país e os cidadãos angolanos estão em risco. É uma das lições a retirar. Devemos apostar nos serviços de proximidade, melhorar o saneamento básico, todos estes processos devem ser refinados. Ao contrário do que muita gente pensa, não são precisas toneladas de dinheiro. Precisamos de organização, de pessoas que possam ajudar a construir os sistemas de cuidados sanitários e de saúde. Temos as universidades também, onde podemos tirar proveito da comunidade académica para melhorar os sistemas de saúde pública. Tudo sem dispensar somas avultadas de dinheiro. Esta coisa de pensarmos que só podemos ter um sistema nacional de saúde se aplicarmos milhões e milhões de dólares não é verdade. As nossa prioridade devem ser os cuidados primários de saúde e os sistemas de vigilância epidemiológica, devido ao nosso passado. É por aí que devemos ajustar as nossas despesas com a saúde pública

Fonte: JA/JS

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