A 31 de Outubro celebra-se o Dia Mundial da Poupança. Apesar de as cartilhas defenderem que poupar possibilita melhor gestão económica, em Angola acaba por ser quase irrealista, já que o rendimento da maioria dos funcionários é insuficiente para suprir as necessidades diárias.

(Por Francisca Augusto)

O exercício de poupança, que implica economizar, ou seja, guardar algum dinheiro do rendimento para posterior utilização, torna-se um “bicho-de-sete-cabeças” para um funcionário de base, se se tomar em conta que o salário mínimo da função pública está fixado em 33 mil kwanzas (69 dólares).

Apesar do acréscimo, os especialistas em economia e finanças dizem ser quase impossível fazer poupança, devido às alterações registadas na taxa de câmbio (dólar cotado hoje, quarta-feira, 30, 505 e o Euro cotado a 561), uma desvalorização face às duas moedas acima de 50 por cento) desde Janeiro deste ano.

Factores que dificultam a prática de poupança

A crise económica que assola o país faz com que a condição social das famílias fique condicionada. O exemplo desta realidade está patente nos preços dos produtos básicos, com destaque para os alimentares.

Há quatro anos, a caixa de coxa de frango era comercializada a cinco mil  kwanzas, ao contrário dos nove mil e 500 kwanzas actuais e com tendência para aumentar, enquanto o saco de arroz de 25 quilogramas, que custava cinco mil  kwanzas, agora vale AKz 12 mil.  

Para adquirir esses bens essenciais, muitos recorrem aos adiantamentos salariais e aos famosos “kilapis” (empréstimo fora do circuito bancário) com pagamento de juros de 50 por cento. 

Manuel ventura, funcionário público, de 50 anos de idade, diz não conseguir poupar, porque os preços  da cesta básica e outros produtos e serviços sobem todos os dias no país.

Segundo Maria  de Lurdes, também funcionária  pública, antes da crise financeira em  2014 e com uma remuneração mensal de 60 mil kwanzas, conseguia poupar, além de efectuar despesas para a alimentação, roupas e propinas para os filhos.

“Hoje aufiro 150 mil kwanzas e não chega, pois a cesta básica consome quase todo salário”, refere.

Ana Silva, funcionária do sector privado, recorre aos empréstimos ou aos famosos “kilapis” para suprir as suas necessidades básicas, porque com o que ganha não consegue adquirir o necessário para a vida.

Gestão das despesas

A respeito do tema a economista Maria de Carvalho realça que, “hoje por hoje”, os gastos sãos superiores aos rendimentos, facto que leva muitos cidadãos a se endividarem, pondo de parte a prática de poupança.

Maria de Carvalho enfatiza que o “consumismo compulsivo” e a falta de educação financeira familiar é um outro factor de realce, já que as despesas são realizadas sem se ter em conta o rendimento mensal.

Esclarece que para definir orçamentos de despesa, o primeiro passo é começar a registar todas as saídas de dinheiro e a agrupá-las por categorias num mapa de despesas.

“Em momentos de crise, é preciso redobrar o controlo dos gastos e manter a boa gestão da vida financeira. Algumas despesas fixas devem ser bem analisadas, diminuídas e até mesmo cortadas, pois se houver qualquer variação na renda, haverá problemas para terminar o mês”, aponta.

Segundo Maria de Carvalho, para crescer e prosperar em momentos de crise é preciso, não só, controlar os gastos, mas também buscar alternativas para se evitar novas dívidas, reduzindo assim os riscos e mantendo a simplicidade na condução das finanças familiares.

A poupança é fonte de riqueza para qualquer pessoa, família, empresa ou país. Geralmente o dinheiro guardado é acumulado e investido.

Maria de carvalho  refere que, para poupar, será preciso que todos na família, até mesmo as crianças, mudem o seu comportamento no que diz respeito aos desperdícios e gastos extras.

“É bom marcar uma conversa com todos, não sobre redução de gastos, mas sim sobre sonhos a serem realizados. Fale abertamente e estabeleça ao menos um sonho colectivo, algo que todos de casa desejem, como uma viagem ou uma reforma na casa”, sublinha.

Por sua vez, o economista Olavo Quintas explica que a poupança é a força motriz para a realização do investimento, tanto a nível de uma sociedade, como pessoalmente.

“Torna-se importante poupar na medida em que o nível de poupança reflecte uma determinada capacidade individual ou colectiva para fazer face à ocorrência de situações futuras”, destaca.

Nestes termos, alude que a poupança também permite reduzir a vulnerabilidade ou melhorar a posição dos agentes económicos (especificamente a Família e o Estado), em relação à variação do ciclo económico entre períodos de crise e períodos de prosperidade.

Já o economista Afonso Malundo diz ser fundamental não se perder de vista o foco nos objectivos e no dinheiro necessário para os gastos, com o fim de optimizar as despesas e procurar os melhores negócios.

Em Angola, com o objectivo de melhorar a inclusão financeira e cultivar os hábitos de poupança, o Banco Nacional de Angola (BNA), assinou, em 2015, com o Ministério da Educação, um memorando que permitiu inserir conteúdos financeiros no sistema de ensino nacional.

Neste projecto, segundo estatísticas do Banco Central de 2018, estão envolvidos 86 escolas do ensino primário e do I ciclo das 18 províncias do país.

Na mesma senda, o BNA realizou um concurso nacional anual de educação financeira que já preparou mais de trezentos professores em 17 das 18 províncias do país.

No âmbito do programa de educação financeira, o Banco Central implementa a “Conta Bankita” no sistema financeiro angolano, desde 2012. Este projecto visa a abertura de contas para crianças e adolescentes, com o fim de melhorar a inclusão financeira no país.

Treze bancos já aderiram a este programa que, segundo as estatísticas oficiais, já resultou na abertura de 80 mil e 421 contas Bankita.

Com essas acções, o BNA pretende melhorar a inclusão financeira, com o propósito de contribuir no crescimento económico real do país e, consequentemente, das famílias.

Fonte: ANGOP/BA

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