Se a Rússia incomoda muita gente, uma estrela porno incomoda muito mais

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A procuradoria distrital do sul de Nova Iorque recusou esta semana devolver o material (apreendido pelo FBI) no escritório e residência de Michael Cohen, o advogado pessoal de Donald Trump, que, duas semanas antes das presidenciais de 2016, comprou o silêncio da atriz pornográfica Stormy Daniels sobre “uma noite de sexo” com o Presidente dos EUA.

O Expresso ouviu vários peritos legais, diplomatas e veteranos do FBI sobre este caso que terá elementos de ligação ao escândalo das alegadas relações entre a Casa Branca e a Rússia. A começar pelo próprio Cohen.

Em causa estão documentos, anotações e gravações áudio de conversas entre o magnata e o causídico que aos poucos se tornou confidente, uma relação profissional iniciada em 2006 e que incluirá também uma parceria no ramo imobiliário.

Na segunda-feira, Cohen apresentou-se em tribunal com o objetivo de impedir que as autoridades passassem aqueles dados a pente fino. Classificou a operação do FBI da semana passada de “única”, “sem precedentes”, e queixou-se de que o privilégio cliente-advogado, isto é, a parte da lei que define que o representante legal tem o direito de recusar entregar comunicação confidencial, “foi violado”.

Em entrevista ao Expresso, Mark Zaid, advogado e professor de Direito na Universidade Johns Hopkins, reconhece que há razões para o líder americano estar “apoplético”, dada a quantidade de informação resgatada. “Ele teme que o FBI saiba tudo sobre o que ambos conversaram e os serviços que Cohen lhe prestou. A pressão sobre Cohen é enorme e há a possibilidade de ele vir a cooperar em troca de uma pena menor”.

Em resposta ao pedido do advogado, a equipa liderada pelo procurador Robert Khuzami, independente da que investiga o alegado conluio (‘Russiagate’) entre o Kremlin e a campanha de Donald Trump para manipular os resultados das presidenciais de 2016, garantiu que tudo será analisado por uma unidade independente, que se certificará de que não existe material protegido pelo tal princípio de sigilo. Cohen exige uma entidade externa.

Um crime debaixo do tapete

Contactada por telefone, a nova advogada pessoal de Trump, Joanna Hendon, disse que “o Presidente e o seu representante são as únicas pessoas motivadas em assegurar que o privilégio cliente-advogado é propriamente evocado e aplicado”, repetindo o argumento usado na carta enviada a Kimba Wood, a juíza que avaliou o pedido.

Wood deu razão a Khuzami, que também argumentou que Cohen nunca trabalhou como representante de Trump, pois jamais forneceu serviços legais. A ligação entre ambos relaciona-se com pagamentos feitos a mulheres que alegam ter sido amantes do multimilionário nova-iorquino. Cohen é descrito como “um mero facilitador” e, como tal, o direito ao sigilo não se aplica.

No caso de Stormy Daniels, o silêncio custou 130 mil dólares (83 mil euros), enquanto a coelhinha da “Playboy” Karen McDougal recebeu 150 mil (98 mil euros), duas das dezenas de mulheres que até hoje revelaram ligações íntimas ao magnata.

Neste contexto, o pagamento a Daniels destaca-se porque configura a prática de um crime. Em entrevista ao Expresso, Trevor Potter, ex-presidente da Federal Election Commission (agência semelhante à Comissão Nacional de Eleições em Portugal) explica porquê: “O pagamento de 130 mil dólares feito duas semanas antes das presidenciais de 2016 é uma doação de Cohen, que diz que não recebeu ordens de Trump e que pagou do seu bolso. O problema é que essa doação é superior ao limite legal de 2700 dólares que um particular pode oferecer. Se ele fez isso em nome ou com o objetivo de proteger o seu cliente, então é um ato ilegal com o objetivo de influenciar os resultados eleitorais, no sentido que beneficia o candidato ao varrer a história para debaixo do tapete”.

Uma “cunha” pró-russa

Muito se especulou esta semana sobre o que Cohen conhecerá das alegadas relações entre Trump e o Kremlin. No início de 2017, John Herbst, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia, revelou ao Expresso o teor de um encontro realizado em finais de 2016 entre o advogado e Andriy Artemenko, um homem com ligações estreitas aos partidos ucranianos pró-russos.

Durante a reunião de cerca de meia hora, no hotel Loews Regency, em Manhattan, Artemenko entregou um plano de paz para a Ucrânia, que passava pela retirada das forças russas do leste do país em troca do fim das sanções americanas contra Moscovo. Cohen nunca desmentiu o frente a frente e Herbst suspeita ainda hoje que “ele tem muito para contar”.

O episódio Stormy Daniels ganha, assim, maior peso porque o procurador especial da investigação ao ‘Russiagate’, Robert Mueller, usará eventualmente o pagamento de Cohen à atriz para o pressionar a fornecer informação sobre comunicações com o Kremlin, oferecendo-lhe em contrapartida um perdão parcial da pena que pode chegar aos 12 anos de prisão. Isto, caso se prove que houve fraude bancária visto que Cohen fez uma nova hipoteca da casa mobilizar o dinheiro, mentindo quanto ao destino do mesmo.

“O interesse de Mueller em Cohen tem dois motivos: as negociações para construir uma Trump Tower em Moscovo e os contactos com indivíduos próximos do Kremlin”, afirma Coleen Rowley, ex-agente do FBI e personalidade do ano em 2002 para a revista “Time”, devido às investigações ao atentado de 11 de Setembro de 2001. “Esta metodologia assemelha-se à usada pelo procurador Ken Starr, que começou por investigar o escândalo financeiro Whitewater, envolvendo o ex-Presidente Bill Clinton, e acabou por ‘pescar’ o folhetim Monica Lewinsky, que levaria ao processo de impeachment. O conluio russo está a metamorfosear-se devido a um escândalo sexual”.

Fonte: msn notícias/BA

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