São Tomé e Príncipe serve de base da NASA para estudar nuvem de fumo sobre o continente africano

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A agência espacial norte-americana NASA está instalada em São Tomé e Príncipe, durante um mês, para realizar voos com o objectivo de recolher amostras de uma gigantesca nuvem de fumo que cobre parte do continente africano e do Atlântico.

Cerca de 100 investigadores estão envolvidos no Oracles, projecto da agência espacial NASA, que procura analisar os impactos da extensa nuvem de fumo causada pelos fogos intensos da tradicional queima de plantações em África, uma forma de as populações produzirem fertilizante para a campanha seguinte.

Ao longo da missão, os investigadores esperam realizar cerca de 15 voos, durante os quais recolhem amostras das nuvens e do fumo (aerossóis), que são analisadas logo a bordo do avião, mas também de forma remota.

O projecto começou na Namíbia, em 2016, quando a equipa estudou a zona sul do fumo e, em 2017 e 2018, São Tomé foi escolhido como base para analisar o fenómeno, agora mais a norte.

Os fumos concentram-se acima das nuvens, a uma altitude entre um a cinco quilómetros acima da superfície terrestre, sobre parte do continente africano e do oceano Atlântico e já foram mesmo detectados no Brasil.

“As nuvens reflectem muita da luz do sol de volta para o espaço e arrefecem o planeta. Estamos a tentar ver o efeito do fumo na alteração dessa capacidade das nuvens de arrefecerem o clima”, explicou à Lusa Robert Wood, um dos responsáveis.

O avião está equipado com “diferentes tipos de instrumentos, que medem as partículas do fumo, do que são compostas, como absorvem e reflectem a luz”, referiu o responsável.

Os voos são marcados para as 08:00, mas a preparação começa bem mais cedo.

Antes da descolagem, uma carrinha percorre a grande velocidade a pista do aeroporto para afastar os falcões, que poderiam entrar numa das turbinas do avião. Um militar passeia pela área de caçadeira na mão e dispara contra os animais que possam perturbar o funcionamento do aeroporto.

“No outro dia, estava um porco na pista. Mataram-no e acho que o levaram para comer em casa”, relatou à Lusa uma das responsáveis da missão, Paquita Zuidema.

Os cientistas têm de verificar e calibrar os equipamentos, incluindo os vários instrumentos que estão no exterior do avião.

Durante a viagem de oito horas, o avião vai voar a diferentes altitudes: ou mais acima, no fumo, ou mais abaixo, nas nuvens, permitindo aos diferentes investigadores recolherem os dados necessários.

David Harper é um dos cientistas a bordo do avião e opera um instrumento que dispara lasers para o espaço. À sua frente, tem dois ecrãs de computador, onde recebe a informação da luz que é reflectida, o que lhe permite analisar “quanto está lá” e “o que é” – naquele dia, era possível observar uma pluma de poeira do Saara.

Original de França e Senegal, Ousmane Sy opera um radar que envia ondas de rádio e permite medir quanta água existe e a dimensão das gotículas de água, o que é “uma informação muito útil para os cientistas”.

Amie Dobrachi, estudante de pós-graduação, tem “o trabalho mais divertido”, que consiste em “fazer a composição química total” do aerossol. “Vemos de que é feito, a nível químico e orgânico, nitratos, sulfatos, amónio. Fazemos o perfil total do aerossol e como muda de voo para voo”, comentou.

Até agora, a pesquisa já permitiu fazer algumas descobertas: “Esperávamos que as plumas de fumo e as nuvens não se tocassem. Percebemos que, mais frequentemente do que pensávamos, a pluma de fumo e as nuvens de baixa altitude se misturam. E isso era completamente inesperado”, explicou Jens Redemann.

Para conhecer os resultados da investigação, pode ser preciso esperar até dez anos, depois da publicação de relatórios e ensaios, disse Robert Wood.

O projecto parece passar despercebido aos são-tomenses, mas é possível acompanhar os voos em tempo real, através da internet.

A maioria da equipa envolvida no Oracles está em São Tomé e Príncipe – alguns ficaram nos EUA – e “instalou-se” num hotel de uma cadeia portuguesa, na capital do país.

Numa sala ampla, os investigadores montaram o “quartel-general”, distribuindo-se com os seus computadores portáteis por várias mesas. Há máquinas de café e de água e alguma comida.

Falam todos em inglês, mas há nacionais de pelo menos dez países e de origens tão diversas como a Europa, Ásia, América do Sul e do Norte, e África.

Durante a estada em São Tomé, os investigadores também aproveitam para conhecer a ilha, que é “particularmente agradável para passear”.

“Somos obrigados a tirar uma folga. Ao fim de sete dias de trabalho, temos mesmo de tirar um dia, caso contrário ficamos muito cansados”, disse Robert Wood, a quem a campanha eleitoral, que terminou esta sexta-feira, não passou despercebida: “Isto está um pouco turbulento, não está?”.

Fonte: NJ com Lusa / EB

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