Regresso aos palcos de Filipe Mukenga no Palácio de Ferro

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O retorno do cantor e compositor Filipe Mukenga ao palco do Palácio de Ferro, sábado último, e a sua reiterada inclusão no  cartaz da programação cultural da III Trienal de Luanda, indiciam sintomas de inequívoca popularidade e  qualidade musical de um artista que tem sido objecto de uma apreciação crítica positiva junto de um público exigente, distante do mercado que vem sustentanto a lógica do consumo  imediato.

Filipe Mukenga é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais, que passam pela recolha da música tradicional angolana, pelas influências da Música Popular Brasileira, pelo rock e pelas sugestões rítmicas e vocais do jazz. Filipe Mukenga pisou o palco pela primeira vez no programa “Chá das seis’’, realizado no antigo cinema restauração, em Luanda, com apenas catorze anos de idade, interpretando a canção “Donne-moitesseizeans” de Charles Aznavour. Na adolescência viveu intensamente o período em que a música portuguesa e a eclosão dos “Conjuntos de música moderna” conviviam nos míticos anos sessenta, com os segmentos mais representativos da Música Popular Angolana.Tal facto deu azo à sedimentação e continuidade do período da renovação estética, movimento que teve como principais arautos Rui Mingas, André Mingas, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e o próprio Filipe Mukenga. 
Filho de Anacleto Gumbe e de Isabel André, Francisco Filipe da Conceição Gumbe nasceu no dia 7 de Setembro de 1949 na maternidade velha de Luanda. Filipe Mukenga, que recorda e valoriza a influência do canto litúrgico da Igreja Metodista na sua música, passou pelos Indómitos e Apollo XI, dois conjuntos da então apelidada música moderna. De notar que a designação “Conjuntos de música moderna”, surgiu em oposição aos agrupamentos de música de raiz angolana, tal como os Kiezos e Jovens do Prenda. À época grupos como “Os electrónicos’’, do Vum-Vum, “Os rocks’’ de Eduardo Nascimento, os “Black stars’’ do Gerónimo Belo, os “ Thewindes”, do baterista Beto Silva, “A nave”, de José Eduardo Sambo e João Silvestre, “Os gémeos 4”, do José Agostinho, e os “Five kings”, do Mello Xavier e Tito Saraiva, contribuíram para que se efectivasse a abertura dos ritmos de raiz angolana às experiências de renovação, inclusão e fusão. A passagem de Filipe Mukenga pelo exército colonial foi de suma importância para a construção de uma consciência artística voltada para revalorização estética da música de emanação rural. Neste período, Filipe Mukenga aprendeu a filosofia e a cultura musical de várias regiões do país, sobretudo a dos umbundus e dos kwanyamas, através do convívio com os soldados que cumpriam o serviço obrigatório da tropa colonial, provenientes de diferentes grupos étnicos angolanos.
Misoso
Terminado o serviço militar, em 1973, Filipe Mukenga fundou, com José Agostinho, que conhecera no conjunto Apolo XI, o Duo Misoso, uma formação que transportava para o canto e guitarra os ritmos absorvidos da experiência no exército. Em 1980, um facto importante marcou o início da internacionalização de Filipe Mukenga, o encontro com o cantor alagoano Djavan. Integrado numa importante caravana artística brasileira, Djavan visitou Angola através do histórico Projecto Kalunga, e decidiu incluir no seu álbum Seduzir (1982) os temas “Nvula’’ e “Humbiumbi’’, transformando-os em sucessos internacionais, com interpretações de Flora Purim, Estevão Gibson, Silva Nazário, Paulo de Carvalho, Abel Duerê e dos grupos brasileiros Banda Mel e do Fundo do Quintal.
Duo
Com a morte de José Agostinho, seu companheiro do Duo Misoso, Filipe Mukenga homenageia o seu amigo com a canção “ Blues pala nguxi’’, numa das interpretações mais notáveis da sua carreira. Sobre o assunto Filipe Mukenga disse, nostálgico, o seguinte: “É um tema que muito me sensiliza e que gosto muito. Quando oiço esta canção recordo-me e presto  homenagem a um grande amigo e músico com quem tive a felicidade de privar e de trabalhar durante anos, tendo como motivo essencial a nossa musica’’. José Agostinho era um músico de extrema sensibilidade, sabia o que queria, tinha uma personalidade muito forte, e era detentor de um timbre vocal que dialogava perfeitamente com a voz de Filipe Mukenga. Os contra-cantos do duo eram perfeitos, consequência da natureza vocal de José Agostinho, que permitia atingir notas musicais muito altas.
Discografia
Em 1990, Filipe Mukenga cria a banda Madizeza com KinitoTridande (baixo), Rui César (teclas) Marito Furtado (bateria) e Joãozinho Morgado (tumbas). A Banda Madizeza foi a formação de base com a qual Filipe Mukenga gravou, em Portugal, o álbum “Novo Som’’ (1991), o primeiro da sua carreira, com a participação do cantor Rui Veloso na harmónica. “KiandaKi Anda” (1995), o segundo álbum de Filipe Mukenga, é uma proposta musical mais africana, ao nível das harmonias, um CD que consagrou a versatilidade de Filipe Mukenga junto das elites musicais africanas com residência em paris. “KiandaKi Anda” foi eleita no Top Kilimanjaro da Rádio 1, do Gabão, emparceirando com ícones da música africana. 
 A parceria entre Filipe Mukenga e Filipe Zau, a nível da produção textual, em mais de 80 canções, muitas das quais não gravadas, data de 1978. Com Filipe Zau surgiu “ O canto da sereia, o encanto” uma opereta em duplo álbum que narra a saga dos marinheiros angolanos na época colonial, conto com as participações de Carlos Burity, Eduardo Paim, Katila Mingas e o cantor português Fernando Tordo. “Muimbuiami” (minhas canções), gravado no Brasil (Salvador da Bahia), a penúltima obra discográfica de Filipe Mukenga, contou com a prestimosa colaboração de Djavan. Um reencontro que exalta o lado “afro” do cantor Brasileiro. “Nós somos nós”, último trabalho discográfico de Filipe Mukenga, acusa, de forma visível, o lirismo das guitarras da banda de Zeca Baleiro, um cantor e compositor do Maranhão da geração pós-tropicalista. Gravado no Rio de Janeiro e São Paulo, o CD conta com as participações especiais de Vânia Abreu, na canção  “Aprisionar a negra noite”, de Martinho da Vila, no tema “Paquete”, e do produtor do CD, Zeca Baleiro, na canção “Uma volta e meia”.
Concerto
No concerto de sábadoúltimo, bastante aplaudido, Filipe  Mukenga revisitou a sua portentosa discografia e interpretou as canções, “Humbiumbi”, “Muloji” , “Minha terra terra minha”, “Kusamba”, Nvula, Balabina, Blues pala Nguxi, “Ndilokewa”, Vutuka I loveyou”, “Ixiietuiatuluka”, e “Angola no coração”, que público aplaudiu de pé, acompanhado pelos instrumentistas  Nino Jazz, direcção musical, arranjos e teclas, TotyS’amed, violão e guitarra, Mário Gomes, violão e guitarra, MayoBass, baixo, Dilson Peter, bateria, Dalú Roger, percussão e nos coros Tchilo Clemente e Nguxi.

Fonte: JA/BA

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