O actor negro que transformou o ódio em respeito

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Um homem alto, bem-apessoado, de fato e gravata, sorriso pronto. É esta a imagem de Sidney Poitier que assoma à memória quando falamos de uma das estrelas de cinema mais proeminentes da conturbada década de 1960. Falta acrescentar: é negro.

O primeiro a conquistar o Óscar de melhor actor, em 1964, por um papel em que veste T-shirt e calças de ganga. Nesse filme de Ralph Nelson, Os Lírios do Campo (1963), é um itinerante folião que, de passagem pelo remoto deserto do Arizona, acaba a construir uma capela para uma comunidade de freiras. Estava com 36 anos, e, como disse no curto – porque inesperado – discurso de aceitação da estatueta, tinha sido “uma grande jornada” até àquele momento. E a verdade é que construiria muito mais do que uma capela.
A celebrar hoje o seu 90.º aniversário, à porta dos Óscares (a cerimónia é no próximo domingo), e num ano em que há forte representatividade afro-americana nas nomeações, não é de somenos recordar que Poitier foi o grande precursor de uma atitude vincada contra os papéis estereotipados dados aos negros.

Em 2002, quando recebeu o Óscar honorário, apresentado por um orgulhoso Denzel Washington, retomou a ideia expressa na primeira consagração da Academia: “Aqui estou eu, no fim de uma viagem que em 1949 era considerada quase impossível.”

Nessa noite, Denzel Washington tornou-se o segundo negro galardoado com o Óscar de melhor ator, por Dia de Treino. Agora, em 2017, Denzel está nomeado pela quinta vez na categoria de ator principal, por Vedações (estreia-se nesta semana), que realizou e pode ganhar também enquanto coprodutor. Moonlight e Elementos Secretos são os outros títulos na corrida centrados na experiência afro-americana. Como foi a de Sidney Poitier?

A medida de um homem

Nascido durante uma viagem dos pais a Miami, foi nas Bahamas que cresceu, numa família de agricultores cuja apanha do tomate era o principal sustento. O regresso a esse local de nascimento aconteceria muito cedo, quando deixou a escola e o pai o enviou para junto de um irmão mais velho, que lá vivia.

Poitier tinha 15 anos quando conheceu o racismo institucional de Miami, e não suportando aquele lugar “anti-humano”, como lhe chamou, apressou-se a rumar sozinho a Nova Iorque. Os primeiros passos desta independência não foram rosas: começou por lavar pratos, e depois de um casting no American Negro Theatre, em que foi rejeitado pelo sotaque e pelas dificuldades de leitura, começou a treinar a voz imitando os locutores de rádio…

Pouco depois conseguiria um emprego na manutenção desse teatro, onde a troco de uma parte do ordenado tinha aulas de interpretação. Um dia, a sorte piscou-lhe o olho, e Poitier substituiu o ator Harry Belafonte numa peça. Bastariam mais dois anos de teatro para os produtores de cinema repararem nele.

Falsa Acusação (1950) é a sua primeira presença no grande ecrã, no papel de um médico. Sidney Poitier granjeou desde o princípio um respeito que lhe permitiria escolher, ao longo da carreira, as personagens que considerava adequadas à ideia do seu perfil (chegou a mentir na idade a Joseph L. Mankiewicz para conseguir o lugar neste filme, dizendo ter 27 anos, quando tinha só 22).

Era preciso quebrar o modelo servil das personagens negras, aquele que fez da atriz Hattie McDaniel, a criada Mammy de E Tudo o Vento Levou (1939), uma mulher simultaneamente marcante e irrelevante: a primeira oscarizada num papel secundário (mantida ao fundo da sala, separada do elenco durante a cerimónia), que agradeceu com emocionada solicitude perante uma plateia condescendente. Era apenas um dos seus 74 papéis de criada…

Poitier não aceitou manter esta tipificação dos afro-americanos, colaborando antes com projetos e cineastas que deixassem a questão racial emergir em novos contextos e com novas oportunidades narrativas.

Os Audaciosos (1958), assinado por Stanley Kramer, foi um desses filmes, e a sua primeira nomeação ao Óscar – a primeira de qualquer negro na categoria de melhor ator. Daí à estatueta dourada foi um salto. Poitier estava a refinar “a medida de um homem” (título da autobiografia), que teve o auge em 1967, com três filmes: O Ódio Que Gerou o Amor, de James Clavell, No Calor da Noite, de Norman Jewison, e o célebre Adivinha Quem Vem Jantar, de Kramer, com Katharine Hepburn e Spencer Tracy (no derradeiro papel).

Se no primeiro Poitier transformava a hostilidade de uma turma em admiração, no segundo despertava o respeito de um agente da polícia (Rod Steiger), e no terceiro, um filme sobre o casamento inter-racial, beijava uma atriz branca, com direito a final feliz. No ano seguinte seria votado o ator mais popular da América.

Mas, porque mesmo quando se abrem caminhos existe quem questione as escolhas, Sidney Poitier foi também injuriado pela sua imagem “civilizada”. Uma nobreza de carácter bem visível no abraço que deu a Barack Obama quando lhe foi atribuída a Medalha Presidencial da Liberdade.

Fonte: msn notícias/BA

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