Nem “paculado”, nem “preto retinto”; muito menos, “cabrito” O racismo clássico do século XVIII e os conflitos sociais do século XXI

0

 

Por Vilmária Santos[i]

A revista National Geographic publicou, nesta semana, um editorial na edição de abril em que reconhece um olhar racista presente em coberturas jornalísticas do passado. Retomando um antigo (mas pouco conhecido pela opinião pública) episódio histórico que revela o racismo como uma construção discursiva e não biológica.

Devido às expansões culturais, fomentadas pelo fenômeno da globalização através das tecnologias da informação, falar sobre discriminação racial e identidade cultural tornou-se um dos assuntos mais comentados, sobretudo, nas plataformas de interação social. Palavras como: racismo, xenofobia, antissemitismo, eugenia, etnocentrismo e afins assumem lugar de destaque nos lides das nossas telas, diariamente. Afinal de contas, sobre o que estamos falando? Para adiantar a conversa, já afirmo que o que vivemos hoje não é um novo racismo. Penso que as mais variadas formas de conflitos que envolvem discriminação e opressão entre pessoas são, na verdade, as consequências psicossociais de um processo histórico e violento. A afirmação é fundamentada na observação histórica que remonta mais de 200 anos.

Nos séculos XVIII e XIX, o racismo clássico ou racismo científico assumiu destaque dentro e fora das academias, quando teóricos da antropologia física clássica diferenciavam, classificavam e, posteriormente, hierarquizavam as pessoas a partir de suas características morfológicas (cor da pele, textura do cabelo, tamanho do crânio etc.), associado a isso, atrelavam-se às capacidades e habilidades intelectuais (testes de aptidão física e intelectuais como o teste de Quociente de Inteligência-QI) desenvolvidas por teóricos da medicina. A partir disso são reforçados os estereótipos de “preto burro” ou com “mentes de criança.”

Fotógrafa e Jornalista. Escreve com luz, letras e alma.

 

Nem “paculado”, nem “preto retinto”; muito menos, “cabrito”

O racismo clássico do século XVIII e os conflitos sociais do século XXI

De acordo com a teoria da evolução, proposta por alguns autores polifiléticos,[i] a espécie humana originou-se de diferentes espécies de macacos, em que os classificados como “brancos” tinham como origem a espécie chipanzé (tida como a mais evoluída espécie); os “amarelos” vinham do orangotango; e os “negros”, do gorila.

O ideário de diferenciação, discriminação e hierarquização humana deu tão certo que ela passou a ser a base para estruturação e manutenção de poderes entre os tidos como “raças evoluídas” (nesse caso, pertencia a essa categoria os chamados brancos ou arianos), que exerciam o domínio sobre as consideradas “raças inferiores” (pertenciam e esse grupo, sobretudo, os denominados negros).

O discurso racista foi elemento fundamental para sustentar modos de produção como a escravatura no período colonial, que já ocorria desde o século XV, e modelos políticos como o próprio nazismo criado após a Primeira Guerra Mundial. O comércio de escravos, por exemplo, não teria existido se a maioria dos europeus não acreditasse que os negros pertenciam a uma raça inferior, até mesmo, sub-humana.

Atualmente, as querelas sociais relacionadas a questões raciais e étnicas são algumas das sequelas que se arrastam, modificam e se fortalecem a cada dia. Não acredito que o racismo cultural seja um “novo racismo”, pois não estamos falando novos racismos, mas de práticas criminosas que foram instauradas, sedimentadas, compartilhadas, difundidas em larga escala e, atualmente, assumem diversas e complexas configurações. E, por isso, mostram-se multifacetadas.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as teorias racistas passam a ser identificadas com uma falsa ciência, porém milhões de pessoas são dizimadas sob discursos de “limpeza étnica” até hoje. A partir disso, o século XX é marcado por genocídios que sangram ainda mais a história da humanidade. Como exemplos, podemos citar o Genocídio Armênio de 1915 a 1923, quando mais de um milhão de armênios foram mortos por turcos otomanos. O Holocausto nazista que resultou na morte de mais de seis milhões de pessoas. Mais recentemente, mencionamos o conflito sangrento em Ruanda entre Hutus que desejavam o extermínio dos Tutsis em 1994, o que custou a vida a mais de 800.000 pessoas. O conflito de Darfur, no Sudão o qual desde 2013 pessoas sofrem com duras guerras civis que não têm previsão de fim, dentre tantos outros.

O X da questão está no entendimento (ou na falta dele) que, quanto mais fragmentada for uma população de um país, mais vulnerável ela se torna a convulsões internas ou ameaças externas. Prova disso foi a profunda crise econômica em que mergulhou África do Sul, durante o modelo Apartheid, em 1989. Sob um olhar histórico, os conflitos internos podem fortalecer os mais diversos interesses externos.

O nosso contexto exige melhores posturas, as quais implicarão diretamente no nosso bem estar individual e coletivo. Tais posturas deverão estar pautadas na consciência, na resiliência, na justiça e no respeito às diferenças, onde não se deve admitir a cultura da opressão racial, das rotulações estereotipadas ou dos adjetivos de subestimação do outro. Inicia-se um tempo marcado pela busca de igualdade de direitos humanos e de respeito pela vida. Por tanto, nem “paculado”, nem “preto retinto”; muito menos, “cabrito”. Humano!

Como afirmou Antony Giddens: no século XXI, a cultura da opressão racial deve ser desmantelada.

Bibliografia:

Cabecinhas, R. (2007). Preto e Branco. A naturalização da discriminação racial. Porto: Campos das Letras.

Giddens, A. (2008). Sociologia. (F. C. Gulbenkian, Ed.). Lisboa

*Conceito usado na Biologia Evolutiva. Os teóricos caracterizados como polifiléticos, do ponto de vista evolutivo, partem do pensamento de que os humanos não descendem de um mesmo ancestral.

Sobre o autor

Sandra Mainsel

Deixar uma resposta