“Mãe” do GPS foi criada em fazenda e trabalhou como babá para poder estudar

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Além de nos ajudar a saber onde estamos e nos guiar até o nosso destino final, o GPS está presente em outras actividades  nossas como pedir comida, chamar um Uber e até dar match no aplicativo de paquera. O que você talvez ainda não saiba sobre essa tecnologia é que ela foi criada por uma mulher que precisou trabalhar como babá para conseguir custear os estudos.

Nascida no estado da Virgínia (EUA) em 1930, Gladys West é uma entre tantas mulheres que, apesar das grandes contribuições para a humanidade, tiveram suas conquistas apagadas na história, cujas realizações só foram conhecidas bem mais tarde, no final da vida ou de maneira póstuma.

Hoje com 91 anos de idade e já aposentada, West é a matemática e programadora de computadores que abriu as portas para uma das invenções mais usadas no mundo: o sistema de posicionamento global. O caminho não foi nada fácil, com uma infância pobre e muita luta para levar os estudos até o fim.

Trajectoria nos EUA

Contratada pelo Campo de Provas Naval da Virginia, da Marinha dos EUA, em 1956, West se especializou em sistemas de larga escala para computadores e processamento de dados, com o objetivo de analisar informações coletadas por satélites. Mas foi na década de 1980 que ela alcançou seu maior feito.

De acordo com o astrofísico e pesquisador Ethan Siegel, na época, ela programou o computador que calculava o geoide da Terra (a forma do planeta) com precisões suficientes para permitir a existência do GPS. Para conseguir fazer isso, diz Siegel, é preciso levar em consideração variações em todas as forças e efeitos que podem distorcer o formato da Terra. Ou seja, não é pouca coisa.

De acordo com o astrofísico e pesquisador Ethan Siegel, na época, ela programou o computador que calculava o geoide da Terra (a forma do planeta) com precisões suficientes para permitir a existência do GPS. Para conseguir fazer isso, diz Siegel, é preciso levar em consideração variações em todas as forças e efeitos que podem distorcer o formato da Terra. Ou seja, não é pouca coisa.

West ainda escreveu um guia sobre como melhorar a precisão dos estudos com base nas informações coletadas por satélites sobre a forma e a dimensão da Terra, adiantando os avanços a serem alcançados pelas gerações.

Em 1998, ao se aposentar do Centro de Guerra de Superfície Naval, West voltou aos estudos. Dois anos mais tarde, aos 70, ela concluiu o doutorado em Administração Pública e Política.

Só em 2018, aos 88 anos, a cientista foi incluída no Hall da Fama dos Pioneiros do Espaço e Mísseis da Força Aérea dos Estados Unidos em reconhecimento aos resultados da sua dedicação.

Em entrevista para The Guardian no final de 2020, Gladys West disse que a ciência foi seu passaporte para a liberdade. Criada em uma fazenda, trabalhava no campo o dia todo, mas sabia que queria algo diferente para sua vida.

A escola ficava a quase cinco quilômetros de distância, caminhando por matas e riachos, e ela logo se destacou entre as crianças, todas negras, que frequentavam a sala de aula.

Ao perceber o quanto West se dedicava à escola, sua família tentou juntar dinheiro para enviá-la à faculdade, mas as contas a pagar dificultavam o objetivo. A chance veio com o anúncio de que os dois melhores alunos daquele ano, no estado onde West morava, iam ganhar uma bolsa —o que ela conseguiu quando se formou no ensino médio. Foi assim que passou a frequentar a Virginia State College, uma universidade historicamente negra.

Após a graduação em matemática, West se tornou professora e pôde guardar dinheiro para a pós-graduação. Ao concluir mais uma etapa de estudos, aceitou a proposta de emprego na Marinha na década de 1950..

Além de ser apenas a segunda mulher negra contratada na base como programadora, West era um dos quatro funcionários negros no local. Fora da base, o país enfrentava uma batalha contra a segregação racial e por direitos civis.

Por ser funcionária do governo, West foi orientada a não participar dos protestos, mas se comprometeu com o trabalho e fez a revolução do lado de dentro, contra o estigma sofrido pelas pessoas pretas.

“Você nunca acha que qualquer coisa que esteja fazendo militarmente será tão emocionante. Nunca pensamos nisso sendo transferido para a vida civil, então foi uma surpresa agradável”, afirma, sobre a importância que teve no desenvolvimento do GPS.

Senti orgulho de mim mesma como mulher, sabendo o que posso fazer. Mas, como mulher negra, isso é outro nível em que você tem que se provar para uma sociedade que não te aceita pelo que você é. O que fiz foi continuar tentando provar que era tão boa quanto você [pessoa branca]. Não há diferença no trabalho que podemos fazer.
Gladys West

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