Jack Johnson, o negro gigante de sorriso de ouro que Trump perdoou 105 anos depois

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“O combate? Não foi um combate. Nenhum massacre arménio poderia comparar-se à matança sem esperança que hoje aconteceu. O combate, se pudermos chamar-lhe um combate, foi entre um pigmeu e um colosso. Mas fica uma coisa: Jim Jeffries tem de sair da sua quinta e tirar da cara do Jack Jonhson aquele sorriso dourado. Jeff, agora é contigo! O homem branco tem de ser resgatado”.

Foi isto que o romancista Jack London, em serviço para o New York Herald, escreveu sobre aquele combate em Sidney, na Austrália, conta o “Boxing News Online”. Estamos a 26 de dezembro de 1908, o dia em que pela primeira vez um negro levantou o cinturão de campeão de pesos pesados de boxe. Jack Johnson armou-se em Ali antes de Ali, gabarolas, expondo o lombo e a face, convidando o então campeão em título Tommy Burns a bater-lhe. Jonhson mal se mexeu. Era um gigante.

Quando a tal matança sem esperança, que estava muito longe de um qualquer massacre militar, estava a assumir contornos complicados para Burns, a polícia entrou em ação e desligou as câmeras. Era um embaraço transmitir um negro a superiorizar-se fisicamente a um branco. O combate acabou. O cinturão mudou de mãos. Segundo este site de boxe, 20 mil pessoas estavam no recinto e outras 30 mil estacionavam nas imediações, procurando uma nesga para o festival.

O tal anjo branco (“a grande esperança branca”) por quem Jack London suspirava era um antigo campeão da categoria, que fechou a carreira invicto em 1905: Jim Jeffries. Depois da tareia de Johnson a Burns, Jeffries criticou duramente o seu compatriota da mesma cor: “Tommy Burns tem o seu preço: 30 mil dólares. Burns vendeu o seu orgulho, o orgulho da raça caucasiana. (…) Eu recusei uma e outra vez lutar contra o Johnson quando era campeão, mesmo sabendo que o derrotaria. Nunca daria a oportunidade a um preto de lutar pelo campeonato do mundo e aconselhei os outros campeões a fazerem o mesmo”. A vida de pugilista estava bem resolvida e garantiu nunca regressar. Mas mudou de ideias em 1910, depois de cinco anos sem combater. E para quê? Salvar a raça branca no desporto. O fado foi o mesmo: tling!, tling!, tling!, Johnson continua campeão. Chamaram-lhe “Combate do Século” – decorreu em Reno, Nevada. Ou seja, muito antes daquele que viria a ser o novo “Combate do Século” entre Joe Frazier e Muhammad Ali, em 1971, no Madison Square Garden.

Jack Jonhson tornou-se então um alvo a abater. As diferenças raciais estavam bem vincadas. Os Estados Unidos eram já um território quebrado, dividido. O Departamento de Justiça acusou-o de violar a Mann Act, que proibia os homens de cruzar Estados do país transportando mulheres para prostituição, conta o “New York Times”. A Justiça norte-americana aplicou a lei retroativamente e castigou Jonhson por cometer tal crime… com a noiva. O pugilista foi condenado a um ano e um dia de prisão e teria de pagar 1000 dólares de multa. Jack Johnson, que vivia para se desviar de punhos sedentos de ossos, fugiu à prisão e voou para o Canadá.

O exílio continuou na Europa, no México e na América do Sul. De acordo com o “NYT”, a vida esteve sempre complicada para Johnson, que acabou por baixar as luvas e voltar a casa. Cumpriu oito meses de prisão em Leavenworth, no Kansas.

Jack Johnson acabaria por morrer em 1948, quando conduziu o seu automóvel contra uma árvore. Johnson, um gigante de carapaça negra, viveu como quis, desafiando a hegemonia branca. Perto da data da morte, em declarações a um jovem jornalista, desferiu uma frase que ficaria para sempre ligada ao seu legado: “Seja o que for que escrevas sobre mim, lembra-te de que eu era um homem”.

Jack Jonhson conseguiu mais do que ser o primeiro negro a meter as mãos num cinturão de campeão de pesos pesados e a combater a supremacia caucasiana. Johnson venceu um combate com décadas: 105 anos depois, Donald Trump concedeu um perdão presidencial póstumo. O ato e a cerimónia, impulsionados por Rocky Balboa, ou melhor, Sylvester Stallone, ocorreu esta quinta-feira na Casa Branca.

Jack Jonhson conseguiu mais do que ser o primeiro negro a meter as mãos num cinturão de campeão de pesos pesados e a combater a supremacia caucasiana. Johnson venceu um combate com décadas: 105 anos depois, Donald Trump concedeu um perdão presidencial póstumo. O ato e a cerimónia, impulsionados por Rocky Balboa, ou melhor, Sylvester Stallone, ocorreu esta quinta-feira na Casa Branca.

Trump assinou o documento e definiu Johnson como “um verdadeiro lutador”, conta o “Washington Post”. Ao seu lado estava Lennox Lewis, uma lenda do boxe, Sylvester Stallone e Deontay Wilder, o atual campeão de pesos pesados, invicto, com 39 KO a em 40 combates. Esta decisão de perdoar “um dos maiores que alguma vez viveram”, segundo Trump, teve o apoio do Congresso. “Que tal este autógrafo?”, gracejou o presidente norte-americano com o documento em punho.

Fonte: msn/BA

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