Itália ignorou pedido de ajuda de barco com 480 refugiados, 268 morreram

0

Refugiados sírios contactaram durante cinco horas com autoridades italianas, que não enviaram ajuda. Naufrágio do pesqueiro é uma das maiores tragédias no Mediterrâneo desde que começou a crise dos refugiados. 60 crianças morreram sem auxílio.

É um caso que está a chocar e a gerar muita controvérsia. Em 2013, as autoridades italianas ignoraram os vários pedidos de ajuda de um pesqueiro líbio, que transportava centenas de refugiados sírios. 268 pessoas morreram, entre as vítimas contam-se 60 crianças. O barco afundou perto da ilha italiana de Lampedusa, o auxílio estava próximo.

Um ano depois da tragédia, uma das maiores no Mediterrâneo desde o início da crise dos refugiados, a Amnistia Internacional levantou suspeitas quanto à prontidão da resposta das autoridades italianas. Mas só agora, depois de na segunda-feira o L’Expresso ter divulgado as gravações telefónicas, se pôde confirmar que as autoridades italianas decidiram ignorar os pedidos de ajuda dos refugiados no barco.

O primeiro contacto do pesqueiro proveniente da Líbia e repleto de refugiados sírios aconteceu às 12h39. Mohanad Jammo, um médico sírio que estava a bordo do barco, alertou para o risco de o barco afundar. Informou que lá seguiam “cerca de 100 crianças, 100 mulheres e talvez 100 homens.” Mais tarde constatou-se que o pesqueiro transportava 480 pessoas. A pessoa que atendeu pediu as coordenadas do barco, que lhe foram dadas.

Quase uma hora depois, Jammo, voltou a entrar em contacto. “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300.” Uma voz masculina responde assim: “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta, compreende?” E assim Itália e Malta começam a empurrar a responsabilidade do auxílio entre si.

O barco estava a 133 quilómetros de Lampedusa e a mais de 200 quilómetros de Malta, mas, por estar em águas internacionais, cabia a Malta a responsabilidade da missão de salvamento, seguindo o que está definido nos acordos europeus. No entanto, um navio italiano estava mais próximo do pesqueiro, a pouco mais de uma hora, o que significa que Itália devia ter respondido ao pedido de ajuda.

Passaram 30 minutos e nem as autoridades italianas nem as maltesas fizeram algo. Jammo ligou pela terceira vez e disse à guarda costeira italiana que Malta lhe disse que estavam mais perto de Lampedusa. “Lampedusa é Itália? Estamos a morrer, por favor…” Mas as autoridades italianas continuaram a a dizer “para ligar a Malta”.

Numa quarta gravação, fica-se a saber que finalmente Malta decidiu agir e enviou uma embarcação de socorro. Antes, Malta tentou pedir a Itália para enviar um barco para o local onde estava o pesqueiro. Nova recusa dos italianos. Eram 17h07, passaram quase cinco horas.

Quando as autoridades maltesas chegam ao local, o barco estava quase afundado, com centenas de pessoas nas águas. Só nessa altura Itália decidiu enviar ajuda. Mas foi tarde demais e apenas menos de metade das pessoas a bordo foi resgatada. O incidente está agora a ser investigado pelas autoridades italianas.

O caso está a chocar Itália mas não só. Por cá já se registam algumas reações nas redes sociais. Alguns deputados do Bloco de Esquerda publicaram comentários nas suas páginas do Facebook. São os casos de Mariana Mortágua, José Soeiro ou Joana Mortágua.

José Soeiro fala do “nojo” que sente por autoridades “com as prioridades todas ao contrário.” Já Mariana Mortágua questiona: “onde vai parar uma Europa que sanciona a democracia mas que tolera quem ergue campos de concentração ou nega a vida a quem foge da morte?”. E acrescenta: “Pedem-nos que aceitemos esta Europa contra todas as ameaças autoritárias e violentas. O que estão mesmo a pedir, no processo, é que banalizemos as maiores e mais violentas crueldades.”

Fonte: NM/BA

Share.

Deixar uma opinião

%d bloggers like this: