Dança Kizomba de Angola rivaliza com a Salsa em festivais internacionais

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O Dia Mundial da Dança celebra-se todos os anos a 29 de abril.

A data foi criada em 1982 pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, que escolheu o dia 29 de abril como o Dia Internacional da Dança.

A comemoração tem por base o dia de nascimento de Jean-Georges Noverre, que nasceu em 1727 e que foi um dos grandes nomes mundiais da dança.

Comemorações

A celebração do Dia Mundial da Dança tem como objetivo celebrar esta arte e mostrar a sua universalidade, independentemente das barreiras políticas, culturais e éticas.

Neste dia são diversas as atividades desenvolvidas por associações, escolas e outras entidades ligadas à dança, para promover esta arte que é vista como linguagem universal, promotora de ideais como a liberdade de expressão e a igualdade de direitos.

Espetáculos, workshops, demonstrações e palestras são algumas das iniciativas que decorrem no Dia Mundial da Dança em espaços culturais, comerciais e recreativos.

Frases sobre dança

  • “Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!” Nietzsche
  • “Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança mas a paixão que vai na alma de quem dança.” Augusto Branco
  • “Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar… Tu amas, sofres e sentes. Dança!” Isadora Duncan
  • “A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento”. Charles Baudelaire

Em entrevista ao Jornal de Angola, Pedro Vieira Dias Tomás “Mestre Petchu”, um dos mais conhecidos entusiastas da Kizomba no mundo, não só destaca os grandes ganhos nestes poucos mais de 20 anos, como também elucida que ela mesma tem sido aprendida em lugares até há bem pouco tempo tidos como improváveis.

O que moveria um angolano a dar aulas de Kizomba em Portugal?

Na verdade, faz 20 anos desde que a Kizomba entrou para as escolas de dança. E falo por experiência, precisamente, desde a altura em que tive a ousadia de dar aulas da Dança. Fi-lo a responder ao desafio de um amigo, de nome Joaquim Ambrósio, isto em 1996. Primeiro, disse um “não” convicto, porque sempre tivemos em mente que a Kizomba não se ensina, bastava ir às discotecas. Porém, sem preparar nada, sem qualquer metodologia, pensei melhor e acabei por aceitar a sugestão.

Chegou a não ter aceitação?

Várias pessoas. Mas, particularmente, gosto de partilhar o que um dia o Didi da Mãe Preta disse-me. Foi precisamente em 1998, estávamos ambos em Portugal, no Rossio, e ele me disse: “Kandengue, estás a ensinar isso, depois vão dizer que não é nossa”. Passados 18 anos, voltei a encontrar-me com ele no Kilamba, por sinal na homenagem aos Jovens do Prenda e aos Kiezos, e me fazia acompanhar de um grupo considerável de estrangeiros que tinham vindo a Luanda precisamente para conhecer o país da Kizomba.

Ao aperceber-se, o Didi da Mãe Preta veio ter comigo e disse: “Muita coragem. Vocês têm feito um bom trabalho”.

Como conseguiu ter alunos?

Sabe, antes faziam-se os cartazes, que eram colados em quase toda a cidade de Lisboa. Muitos curiosos, muitos que andavam nas escolas de salsa, muitos que não frequentavam as discotecas, mas que queriam aprender, ficaram interessados. Não foi um bom começo, porque sempre mantive a ideia de que a Kizomba não se ensina. Mas a reacção dos alunos foi estupenda e também a minha consciência pesou, no sentido de fazer de facto um bom trabalho, dado que era outra realidade que não a luandense.

Quando é que sentiu que em Lisboa a coisa tinha “pegado”?

Primeiro, recrutei mais pessoas interessadas em dar aulas. O circuito foi crescendo. Mas, em 2001, foi tudo diferente, porque incluí a Kizomba no currículo de danças que ministrava nas escolas de Lisboa. E ainda neste mesmo ano, sou convidado a dar aulas no concurso televisivo “Danças a Pares”, da RTP, único naqueles moldes. Foi aí, de facto, que tudo se tornou mais sério ainda. Fui imediatamente convidado para o Porto, tendo a febre se espalhado para outras localidades. Foi mais ou menos nessa fase que o número de professores de Kizomba aumenta em Portugal, mas, normalmente, dominado por pessoas ligadas aos PALOP.

Isso não influenciou para que se tivesse uma certa interpretação errónea do que de facto era a Kizomba?

Também. Antes de tudo, estávamos a combater um estigma, porque era chamada “dança de pretos”. Houve quem até gozava que os pares juntavam-se muito e que por consequência disso transpiravam muito. Depois, já entre nós, enfrentámos a distorcida informação que dava a entender que a Kizomba era pertença de Cabo-Verde. Os músicos e os cabo-verdianos que davam aulas de Kizomba também espalhavam a informação de que era uma dança deles.

Mas ficou a impressão de que os cabo-verdianos ditavam as regras?

Não é bem assim. Na verdade, era uma medida de dois pesos, porque os DJ das discotecas eram maioritariamente de origem angolana. Neste aspecto, foi importante para nós termos o Kota Cabé (pai do Paulo Flores), uma pessoa que domina bem a gestão das casas nocturnas em Portugal. É uma referência, tanto que chegou a abrir uma discoteca com os Semba Master. E, vendo bem, ultrapassar o ambiente das casas nocturnas e ir parar nas escolas foi determinante para que desse o “boom”. Hoje, já se respira Kizomba nos quatro cantos do mundo. Há um grande interesse por esse movimento.

O que se foi corrigindo?

Houve algumas coisas que se foram corrigindo, principalmente na interpretação dança/música. Lembro, por exemplo, de ouvir, numa grande conferência, o Graça Évora a corrigir que a música “El Sabi” não era Kizomba, mas sim coladera. Entretanto, ela popularizou-se, por ser dançada em estilo Kizomba. Ainda existe muita confusão e há quem dance Kizomba noutros estilos musicais produzidos por pessoas dos PALOP.

O Petchu fez alguma coisa?

Pessoalmente, tenho levado a cabo o projecto da descodificação da dança, para que se possa elucidar e evitar confusões, principalmente, no seu lado histórico, que precisa de ser bem interpretado. Estou a compilar este estudo, que inclui a minha percepção destes 20 anos a dar aulas. Não tarda muito e já lanço.

Contudo, Lisboa perdeu o protagonismo da Kizomba para Paris?

Perder não é bem assim. A verdade é que Paris, já a fervilhar a cultura da moda, mistura-se tudo com muita força. Realmente, Paris teve muita força, tanto que incluiu, isto em 2008, no Festival África a Dançar, o Concurso Internacional de Kizomba. Foi nesse concurso onde nós acabámos por conhecer várias pessoas que também ensinavam Kizomba noutras capitais europeias.

Órfão de bibliografia e de protecção institucional, essa “moda” não propiciou ainda mais a confusão?

E de que maneira! Desta moda nasceu o Urban-Kiz, que é um estilo derivado do Semba e Kizomba, mas que pode ser dançando com todo o tipo de música, tanto hip-hop, balada, rock e mais. O mundo vem dançado isto ao longo destes últimos anos. Mas o concurso de 2008 foi fundamental para que se popularizasse até na Ásia.

Ainda é uma ameaça, o Urban-Kiz?

Embora venha para ficar, o Urban-Kiz é outra coisa. Claro, porque associa-se ao que mais gostam e estão habituados a fazer. Ou seja, é uma forma de interpretação da Kizomba e Semba, ao mesmo tempo, mesclada com toques de tecno. Mas isso não é novo, embora tenha ganhado incidência, tanto que o Urban-Kiz já admite a salsa, o tango, cha cha-cha, ballet e hip-hop. Mas sempre com base Kizomba e Semba show, cultivado por esta nova geração de passistas.

E por cá, corre-se o risco de um dia o Urban-Kiz popularizar-se?

A Europa caminha para lá, porque dança-se muito isso. Aqui, há um certo cepticismo, porque mesmo estes mais novos que enveredaram para o Semba show, de onde também deriva o Urban-Kiz, estão a combatê-lo. Os mais velhos, por muitos não estarem nas redes sociais, não sabem o que se passa. Mas a juventude quer preservar. E muitas vezes peço para irem ver os mais velhos a dançar, porque eles não fazem “truques”, para não perdermos o fio condutor.

Mas a promoção do Semba a Património Imaterial da Humanidade ajudaria bastante…

Penso que, neste capítulo, a ministra refere-se apenas à música, porque não ouvi ela a tocar na dança, que está muito mais distante do que a música. Agora, as duas juntam-se e seria muito melhor. Mas a Europa consome muito mais a dança do que a música. Desafio os jornalistas culturais a andarem pela Europa e testemunharem os passos do movimento. Porque acredito que falta mais isso. Falta fazer saber como estas duas danças made in Angola conquistam o mundo.

Como assim? Não se faz eco suficiente?

Às vezes, a história fala por si. E isso se verifica por Luanda acolher, de quando em quando, uma romaria de estrangeiros que cá chega, por saber que é neste país onde se origina a Kizomba. Por outro ponto, faz todo o sentido que saia mais bibliografia que ateste a nossa criação desde os tempos passados. Isso levará ao silêncio detratores que ainda defendem a ideia de que as dança a pares são europeias. Ou seja, que são eles que nos ensinaram a abraçar. Eu digo e defendo que nós já tínhamos danças a pares, muitas delas foram levadas daqui e foram, inclusive, adoptadas e rebaptizadas. É preciso gente que informe e ponha os debates em dia.

Mas viu-se o apoio do Córeon Dú nesse sentido…

Não pode ser feito com sentido de curiosidade. Precisamos de empresários culturais de verdade. Ou seja, grande parte deles aposta na música e o Córen Dú não foi excepção, visando o que se define mais lucrativo ou onde se ganha grande visibilidade. Sobre a dança, é claro que ele investiu com o programa Kizomba Nation, mas que foi de pouca dura. Por outro lado, acho que vigorou mais a intenção de se mostrar o estrangeiro a reinventar-nos, do que propriamente nós angolanos a fazer.

Detecta alguma injustiça de mérito?

Não propriamente. Mas é preciso dizer que o resultado da Kizomba estar hoje popularizada pelo mundo inteiro foi esforço de angolanos, e não de estrangeiros, como às vezes algumas pessoas tentam mostrar. Essa distorção deve acabar. Hoje é um movimento, porque os PALOP trabalharam. Está em todo o lado, tanto que, nestes últimos tempos, tem conquistado a Europa do Leste.

“O abraço, que antes foi motivo de críticas, é hoje razão para elogios”

Entretanto, é verídico que o primeiro professor a levá-la para fora de Portugal foi um português?

Olha que até pode ser curioso, mas quem leva pela primeira vez, a nível de escola, foi um português, de nome Benjamim. E foi precisamente na Europa do Leste, onde quase ninguém tinha a mínima ideia do que era a Kizomba.

E como foi parar nos festivais?

A Kizomba começa a entrar nos festivais em salinhas muito pequenas. Para já, rivalizava com a salsa, o que provocou muitos ciúmes. Mas as pessoas gostaram da Kizomba de forma muito rápida, tanto é que hoje os bailarinos de salsa se vem quase que obrigados a aprender a Kizomba.

Podemos considerá-la a febre do momento na Europa?

Sem sombra de dúvidas. Mas acho que dizer “febre” sequer traduz bem o fenómeno. Sem qualquer receio, devemos considerar a Kizomba a dança do Século XXI.

Não é um exagero?

Não. É a posição justa. Porque, neste momento, é o facto novo e é a que envolve maior mediatismo a nível do mundo. São milhares de pessoas a viajar para os festivais que acontecem em vários pontos do mundo. Por exemplo, em França, vezes há em que acontecem cinco festivais num final de semana e um pouco igual já está a acontecer nos Estados Unidos da América.

Do seu olhar clínico, o que tanto seduz na Kizomba?

Sabe, o início foi renegado, alegando-se que as pessoas encostavam-se muito. Hoje, caricatamente, é este “encostar” abraçado que mais atrai as pessoas. As cidades modernas sujeitam as pessoas a viverem hoje momentos de grande carência afectiva e a Kizomba tem quebrado isso. As pessoas se abraçam ao dançar. E isso é terapêutico. O abraço, que antes foi motivo de crítica, é hoje razão para elogios. Já ouvi depoimentos de gente que vai ganhando a auto-estima por dançar Kizomba.

Há um público específico?

Não é bem verdade que sejam apenas os jovens a dançar. A Kizomba tem ganhado importância e sentido recreativo. Eu já ensinei diplomatas e gente muito importante. E muitos vão fazer aulas para descontrair e curtir o abraço. Eu já tive vários alunos de 70 anos. Neste momento, a América está em alta na escala de alunos adultos, tanto é verdade que muitos deles viram na Kizomba o ADN das suas origens.

Nesta vida de professor, em que lugares não contava ir?

Estive na Jamaica, em 2011, e pude ensinar Kizomba em casa do Bob Marley. Eles gostaram muito. Disseram que era uma coisa diferente. Contudo, muitos professores estrangeiros e angolanos têm andado por sítios inimagináveis. Já recebi um telefonema de um professor de Kizomba a avisar-me que tinha sido requisitado a dar aulas na Sibéria. Claro que existem aqueles países chaves, tipo Itália, Espanha e França, onde o movimento é bastante consolidado. A Índia também tem mostrado grande interesse, tanto é que já me desloquei para lá para dar formação a professores de Kizomba local. Também já fui ministrar aulas na China.

É a mesma Kizomba que se dança aqui?

(Risos!) Não pode ser a mesma. Precisa é ter as bases. Ela vai ganhando alterações em função das regiões. O que é preciso é não abandonar a patente. Os responsáveis não precisam somente ter a ideia de que o necessário seja injectar rios de dinheiro, o que é preciso é traçar política e institucionalizá-la.

Como assim? Não sente o engajamento do Ministério de tutela?

Na verdade, sinto um desamparo. E o mais triste é que o movimento está aí, a respirar, a ser cada vez mais forte e ninguém a dar por isso. Desde o início deste movimento, já passaram muitos ministros, desde Ana Maria de Oliveira a Carolina Cerqueira. Mas o bom é que a Kizomba está bem viva.

Méritos: JA/LD

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