Covid-19: a corrida à vacinação

0

Logo à chegada ao Complexo Turístico “Paz Flor”, em Luanda, é visível o estacionamento de viaturas no parque interior e do lado de fora daquele estabelecimento. À entrada principal, uma faixa com fundo azul e letras vermelhas informa: Covid-19 – Posto de Vacinação. Localizado no bairro Morro Bento, o complexo tornou-se, desde o dia 10 de Março, num dos locais de imunização contra o novo coronavírus, em Luanda.

A pronta intervenção dos agentes reguladores de trânsito e dos seguranças facilita a orientação de quem precisa estacionar a viatura ou solicitar alguma informação sobre o processo em curso.
O acesso ao local é feito após a medição da temperatura. Nesta fase, estão a ser imunizados os profissionais de saúde e idosos com mais de 65 anos, desde que tenham comorbilidades. Antes do acesso à tenda de vacinação, são feitas duas longas filas, sendo uma exclusiva para os idosos. O objectivo é tornar célere o processo de vacinação.

Após a higienização das mãos com álcool em gel, um grupo de dez pessoas tem “luz verde” para o acesso à tenda, onde estão 20 mesas disponíveis para a imunização. O atendimento é feito por ordem de chegada. A tenda está dividida em várias áreas, nomeadamente registo, triagem clínica, vacinação e repouso.

Relatos de quem
apanhou a vacina

Quando eram 9h00, de quarta-feira, Moisés Chivukuvuku já tinha recebido a primeira dose da vacina da Astrazeneca e aguardava, pacientemente, pelo cartão e recomendações após a imunização.
O ancião, de 89 anos de idade, revelou que foi a filha mais velha quem o inscreveu para receber a vacina, através da plataforma electrónica criada para o efeito. Pastor reformado da Igreja Evangélica Congregacional em Angola (IECA), Moisés Chivukuvuku elogiou “a boa organização e celeridade” do processo.

“Saímos de casa cedo, para evitar longas filas, mas, chegados aqui, vimos que os idosos têm prioridade. Em apenas 10 minutos, já tinha sido vacinado”, disse.
À saída do local, a passos lentos, em função da idade, Moisés Chivukuvuku disse esperar que a vacina o proteja da Covid-19 e que não surjam efeitos adversos, para poder seguir a vida normal que sempre teve, apesar da idade.
Faltavam cinco minutos para Marta Helena, 81 anos, levantar-se da cadeira, onde estava sentada a ouvir atentamente alguns conselhos úteis sobre a vacina, quando foi chamada para receber o cartão de vacina.

“Saímos de casa às 5h00 da manhã. Eu e o meu marido já encontrámos uma lista de presença com vários nomes, mas depois fomos encaminhados para uma sala onde estavam pessoas da nossa idade”, contou.
À reportagem do Jornal de Angola não escondeu o receio que sentiu ao ser imunizada. “Cumpri o meu dever, sinto-me mais protegida”, referiu a idosa.

Eduardo Neto também faz parte da terceira idade. Disse que, tão logo ouviu a notícia sobre o início da campanha de vacinação, decidiu que tinha de ser vacinado. “Assim que cheguei, às primeiras horas da manhã, fiz o cadastramento até ser vacinado”, frisou.
Garantiu que foi bem atendido pelos profissionais de saúde e apelou à população a aderir a campanha. O ancião lembrou que o processo de vacinação contra a pandemia decorre em quase todo mundo, por isso, “não podemos ter receios”.

“Estar na linha da frente
é um risco permanente”
Desde o surgimento dos primeiros casos de Covid-19 no país, em Março do ano passado, os profissionais de saúde foram mobilizados para a prevenção e combate à pandemia. O enfermeiro Diotex Sousa, destacado no Hospital dos Cajueiros, no município do Cazenga, considera “um risco permanente” estar na linha da frente no combate à doença.
“Estamos sujeitos a ser infectados a qualquer altura”, disse, acrescentando que, “além da pressão física e psicológica,  trabalhamos em condições inimagináveis”.

Enquanto exibia o cartão de vacina, Sousa revelou que trabalhou, durante algum tempo, numa área reservada para pacientes com Covid-19. “Apesar do medo de ser infectado com o vírus, sempre atendi bem os pacientes com esta patologia”, assegurou.
Diotex Sousa foi vacinado em 15 minutos. Imunizado, disse sentir-se mais protegido e pronto para continuar o trabalho com dedicação. “Ao contrário do que muita gente pensa, a pandemia ainda não acabou. Temos de manter todas as medidas de protecção”, aconselhou.

Lúcia Campeão sempre trabalhou na Direcção Municipal de Saúde de Luanda, como supervisora de Saúde Infantil. Devido à campanha de vacinação, foi seleccionada para vacinar contra a Covid-19. “Antes do paciente ser vacinado, recebe informações sobre as possíveis reacções adversas, que podem ser alergia, febre, dores no corpo e fadiga”, explicou frisando que as mulheres grávidas e menores de 18 anos não devem ser vacinados.

Campeão considerou “positiva” a adesão à vacina e revelou que, contrariamente ao que se diz sobre a eficácia e segurança dela, as pessoas acreditam e confiam no imunizante.
Até o fim da nossa reportagem, por volta das 13h00, de quarta-feira, mais de 30 pessoas tinham passado pelas mãos de Lúcia Campeão, uma das quais o representante adjunto do Unicef, Andrew Trevett. A jovem enfermeira mostrou-se satisfeita por estar na linha da frente na luta contra a pandemia.

No posto de vacinação do “Paz Flor” estão envolvidos, além dos profissionais de saúde, efectivos da Polícia Nacional, das Forças Armadas Angolanas, do Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola e técnicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Todos passaram por um programa de capacitação para responder ao desafio.

Assistência psicológica

Antes da porta de saída, a psicóloga clínica Bernarda Kambila, afecta ao Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, aconselha, dá palestras e faz a chamada do último registo após a vacinação.
“O atendimento pode demorar entre 10 e 15 minutos, dependendo, também do nível de organização do paciente. Se já tiver feito o pré-registo no site, apenas faz uma análise clínica e, posteriormente, é vacinado”, explicou.

Marisa Sebastião é outra psicóloga clínica, mas afecta ao INEMA. Ela é uma das responsáveis pela área de observação. É através dela que os vacinados recebem os últimos conselhos úteis, enquanto repousam por 15 minutos, conforme recomendam os protocolos sanitários.
“Explico os benefícios de serem imunizadas, assim como as medidas que devem ter ao abandonarem o recinto”, esclareceu a psicóloga.

Depois de serem vacinadas, referiu, as pessoas devem continuar a manter as medidas de biossegurança como a lavagem e desinfecção das mãos com álcool em gel, uso da máscara e do distanciamento social.
“Após ser administrada a vacina, o paciente deve ficar sem consumir bebidas alcoólicas nem fazer o uso de tabaco. Quem está em tratamento médico pode manter a medicação, o mesmo acontece com as mães que amamentam”, aclarou.

Ao chegar à casa, continuou, “pode tomar banho e se tiver dor de cabeça ou nas articulações, toma um Paracetamol, de acordo com o peso”. “Quanto aos efeitos adversos, a pessoa deve ligar para o 111 ou dirigir-se à uma unidade hospitalar mais próxima”, aconselhou.

“A vacinação é a melhor
forma de controlar a doença”
O especialista em Saúde Pública, Jeremias Agostinho considerou assertiva a decisão do Executivo em dar início a campanha de vacinação contra a Covid-19. “A única e a melhor forma de se controlar a pandemia é por via da vacinação”, assegurou.

O médico entende que embora exista um plano de vacinação bem elaborado, ele não deve ser fixo. “O plano deve ser melhorado na medida em que for implementado. É preciso  divulgar mais a campanha de vacinação nos órgãos de comunicação social, nos hospitais e nas comunidades”, recomendou, acrescentando que é necessário combater “as campanhas que desaconselham as pessoas a não apanharem a vacina”.

Para Jeremias Agostinho, o acesso ao posto de vacinação do “Paz Flor” tem sido reduzido, devido à localização geográfica, sobretudo, para pessoas sem meios de transporte. É necessário, prosseguiu, a vacina, em alguns casos, ir ao encontro das pessoas, pois a meta é imunizar o maior número possível.

“Como estamos a usar uma vacina que pode ser conservada a uma temperatura de dois a oito graus, é possível criar equipas de vacinação móveis”, sugeriu o especialista, para quem “o número de pessoas vacinadas em Luanda ainda não é satisfatório”.
Na sua visão, é importante criar todas as condições logísticas, desde o sistema de frio aos postos de vacinação, tão logo o país receba as próximas doses de vacinas previstas.

Efeitos adversos
Questionado sobre os efeitos adversos que podem surgir após imunização, Jeremias Agostinho disse ser comum isso acontecer, porque a vacina é composta de elementos de conservantes e estabilizadores.

Mais diante, explicou “que não são todos os lotes de vacinas, distribuídas, fundamentalmente, na Europa, que causaram algumas reacções”. Sublinhou que, por uma questão de segurança, os lotes de vacinas são agrupados por dia, semana ou mês. “O importante é avaliar o custo e o benefício. Quando o benefício supera em mais de 90 por cento o risco, a vacina pode ser usada”, salientou. Felizmente, disse, as autoridades sanitárias garantem que o imunizante é seguro.
Executivo mantém confiança na vacina
Nesta fase de vacinação em massa, está a ser administrada a primeira dose de vacina da AstraZeneca, desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Angola recebeu um primeiro lote de 624 mil doses, no âmbito da iniciativa Covax.
Entretanto, alguns países da Europa suspenderam um lote de cerca de um milhão de vacinas da AstraZeneca, depois de uma enfermeira austríaca ter morrido dez dias após ter recebido uma das doses da vacina.

Na sequência a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, assegurou que a vacina da AstraZeneca administrada no país “continua a ser segura” e que “não há razões para alarmes”.
“Antes da imunização foram feitas consultas habituais com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e continuamos com a mesma segurança que tínhamos desde o inicio da campanha”, precisou a ministra da Saúde.

O Executivo investiu cerca de 3,5 milhões de dólares no novo depósito central de vacinas, em Luanda. O espaço dispõe de uma capacidade de armazenamento de 75 milhões de doses de vacinas, com três modelos de temperaturas, nomeadamente, a refrigeração de dois a oito graus, congelação menos de 20 graus e ultra-frio.

Plano Nacional
de Vacinação
Com o Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19, o Executivo pretende reduzir a mortalidade e a morbilidade, contribuindo para o bem-estar da população e a retoma das actividades económicas e sociais. A estratégia desenvolvida tem duas etapas e tem um custo estimado em mais de 260 milhões de dólares.

Na primeira etapa, 20 por cento da população será vacinada. Isto inclui a população com exposição contínua, como os profissionais de saúde, de serviços sociais e da ordem e segurança pública, as pessoas com comorbilidades e com idade igual ou superior a 40 anos.
A vacinação será feita em duas fases para conferir imunidade. Serão utilizadas 12,8 milhões de doses de vacina a serem fornecidas pela Covax.

Share.

Deixar uma opinião

%d bloggers like this: