Como os países se preparam para o carnaval virtual?

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Pela primeira alguns países vão realizar a festa do carnaval online em virtude da pandemia da Covid-19.

Na opinião de alguns organizadores, é um carnaval possível no momento em que vivemos. Hoje, o mais importante é resguardar a saúde dos milhares de profissionais envolvidos na maior manifestação cultural do planeta. 

O Carnaval é uma tradicional festa popular realizada em diferentes locais do mundo, sendo a mais celebrada no Brasil. Apesar do forte secularismo presente no Carnaval, a festa é tradicionalmente ligada ao catolicismo. uma vez que sua celebração antecede a Quaresma. O Carnaval não é uma invenção brasileira, pois sua origem remonta à Antiguidade

A palavra Carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Esse sentido está relacionado ao jejum que deveria ser realizado durante a Quaresma e também ao controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de controlar os desejos dos fiéis.

Origem do Carnaval

Alguns estudiosos entendem o Carnaval como uma festa cristã, pois sua origem, na forma como entendemos a festa actualmente, tem relação direta com o jejum quaresmal. Isso não impede que sejam traçadas as origens históricas que nos mostram a influência que o Carnaval sofreu de outras festas que existiam na Antiguidade.

Na Babilônia, duas festas possivelmente originaram o que conhecemos como Carnaval. As Sacéias eram uma celebração em que um prisioneiro assumia, durante alguns dias, a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado.

 

Carnaval na Europa medieval e moderna

Durante os carnavais medievais, por volta do século XI, no período fértil para a agricultura, homens jovens que se fantasiavam de mulheres saíam às ruas e aos campos durante algumas noites. Diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos e invadiam os domicílios, com a aceitação dos que lá habitavam, fartando-se com comidas e bebidas, e também com os beijos das jovens das casas.

Durante o Renascimento nas cidades italianas, surgia a commedia dell’arte, teatros improvisados cuja popularidade ocorreu até o século XVIII. Em Florença, canções foram criadas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados, os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, uma capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e uma máscara branca.

Carnaval no Brasil

A história do Carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Nela, as pessoas saíam às ruas sujando umas às outras jogando lama, urina etc. O entrudo foi proibido em 1841, mas continuou até meados do século XX.

Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos, e as escolas de samba Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados à maior manifestação cultural do Brasil.

A primeira escola de samba foi criada no dia 12 de agosto de 1928, no Rio de Janeiro, e chamava-se “Deixa Falar”, anos depois seu nome foi modificado para Estácio de Sá. Com isso, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram surgindo novas escolas de samba. Organizaram-se em Ligas de Escolas de Samba e iniciaram os primeiros campeonatos para escolher qual escola era a mais bonita e a mais animada. A região nordeste permaneceu com as tradições originais do carnaval de rua, como Recife e Olinda. Já na Bahia o carnaval fugiu da tradição, conta com trios elétricos, embalados por músicas dançantes, em especial o axé. 

Cancelados os tradicionais desfiles e festejos na rua, os cortejos carnavalescos passam para o online, com transmissões, bailes, memórias e muito samba nas principais cidades brasileiras. 

 

BREVE HISTORIAL DO CARNAVAL DE ANGOLA

Os primeiros esboços de folia de entrudo foram introduzidos paulatinamente no reino do Kongo logo a partir dos primeiros contactos dos Portuguêses com gente da bacia do grande rio “N’zadi”, o Zaire. As primeiras gentes a seguir este tipo de manifestação foram os N´Zombo da margem sul do N´Zaire e, os N´Zaus do lado Norte do mesmo rio, os agora chamados de Cabinda, os Lândanas e Inbindas de então . Mais tarde os N´Zeto do Songo e Solongo, mais a sul do reino de Manikongo também aderiram a este brincar de vida.

Na expanção mercantil dos vários entrepostos comerciais, e mais para sul, os Tugas, simultâneamente,  transportaram pela costa mais a sul do actual Ambriz  estes costumes ao reino de N´Dongo, (nome das primeiras canoas e gentes) aquele que veio a ser conhecido por N´gola e depois de Angola.

Os naturais da ilha das cabras ou os Muxiloandas da ilha Mazenga, actual ilha de Luanda, fizeram desta manifestação uma diversão aliada a uma dança conhecida por bassula, esquindiva ou finta.  Com enfeites de fitas e ramos emitavam os novos seres de tês branca, os N´Dele ou T´chindele de chapeus e armaduras em ferro.  Seguiu-se  uma rápida semântica de linguajar e gíria caracterizada pelos camondongos ou kaluandas, uma mistura de kimbundo com pretuguês.

Os Muxiluandas deram o nome de Muala àquela dança já com alguma coreografia e num ritmo de pré-merengue. O semba apareceu a partir da dança Kazukuta, num lugar conhecido por Samba; o próprio Soba Samba aliado a Manhanga (Maianga) deram ao longo dos anos vivacidade a tal manifestação de folguedos.

Aquelas manifestações, a partir de 1800 já tinham grandes momentos de recreação e coreografia. Muito próximo do fim do século XIX, surgiram muceques com nomes de Kamama, Kapiri e Mulenwo que em manifestações de óbito, faziam apelo ao espírito “Kiruwala”, exibindo gestos de quase recreação que os  Muxiloandas ou Axiluandas  usavam para demonstrar fraternidade e apoio social.

Mas, diz-nos a história, que foi em Itália que surgiram as primeiras manifestações carnavalescas. Tudo começou com os bacanais e festas Saturnais na Roma antiga, eram banquetes crapulosos com orgias e libertinagem em honra a Baco, o Deus do vinho, o nectar do Sol, filho de Júpiter e de Sémele de Cadmo. A 15 de Fevereiro, todos os anos e em homenagem a Luperco, se celebrava grande festa em homenagem àquele Deus. Este Deus Luperco, foi um  tal que matou a loba que amamentava Rómulo e Remo.

Saturno também era festejado naquelas festas que ficaram conhecidas por Festas Saturnais. Digamos, que era algo semelhante com as festas juninas de hoje.

Voltando a Angola e, a partir dos anos trinta do século XX, os moradores da Ilha vinham de canoa até à Marginal a que se veio a chamar de Paulo Dias de Novais, e imitavam os marinheiros portugueses com suas fardas imaculadamente brancas, espadas, divisas amarelas e chapeus a condizer. Faziam a folia regada com T’chissângua e vinho do Puto que os “N’Gwetas” traziam da metrópole; eram tempos de folguedos que os N’Gwetas davam aos seus trabalhadores, quitandeiras e lavadeiras para se esponjarem nas areias da Marginal. Os colonos roçeiros, fubeiros ou funcionários, riam e, à sucapa e, no fundo dos quintais de suas quintas ou casas iam fazendo farras de “arrebenta merengue” por debaixo de uma mulembeira, amendoeira, tamarindo ou até imbondeiro; era uma altura prória para as donzelas “N’dele”, crioulas e mocambas se conhecerem, falarem das coisas de literatura e não sei mais de quê, sempre na alçada duma criada mais confiável ou da Dona Lufrásia vizinha de longa data.

A mestiçagem cresceu, quente como o clima e fêz desta manifestação de entrudo uma coisa cheia de mística, purgatório e inferno. Após toda essa folia vinham as confissões ao senhor Cónego do São José do Colony, um qualquer padre ou à Mariazinha que já estava prenha à uns três meses. As orgias de carnaval davam e dão nisto, vinho, cachaça, cat’chipemba, maruvo e zangas entre farfalhos descarados com ciúmes descontrolados, tiros e um deus nos acuda, hospital. Excrecências que os futurólogos estudarão em vaticinios cataclismosos cheio de angústias com fim do mundo.

As manifestações de Saturno e Baco iam proliferando a partir dos muceques, Sambizanga, Prenda, Catambor, Bairro Operário, são Paulo, Kaputo da Terra Nova, Kazenga, Rangel e os já falados pescadores da Ilha, os Muxiloandas. Os  Kaluandas, sempre prontos para a farra, mais os  curiosos do Kifangondo, Cacuaco, Katete, Barra do kwanza,Belas,  Maculussu, Praia-do Bispo e Bungo.

O 1961, chegou a um dia quatro de Fevereiro e, as autoridades coloniais suspenderam todas as manifestações de rua. Timidamente no fundo dos quintais e quase em surdina iam fazendo as farras na Samba, Coqueiros, Barirro do Café, Vila Alice, Quinaxixe  e Maianga; eram resquícios das festas Juninas em homenagem aos santos populares que brancos e filhos crioulos faziam com regulamentos, letra e música e um prémio do Município de Luanda.

Após o ano se 1961, não obstante  as autoridades proibirem manifestações de folia, registaram-se tentativas de desobediência em São Paulo, Anangola, Bairro Operário e Bairro do Cruzeiro tendo daí originado distúrbios com forte repressão por forças militarizadas.  Era uma vingança às mortes de uns quantos polícias quando do assalto à quarta esquadra por entusiastas do glorioso EME, seguindo-se rusgas e cachorros à solta p´ragarrar negro (coisas p´ra esquecer, mesmo tontas mas,…de dificil comprensão).

Foi o inicio da luta armada, a revolta dos perseguidos em tempos de “qwata-qwata” e, eis que em 1965 o Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), regulamenta conjuntamente com a Câmara Municipal os blocos de participantes idos do suburbio para alegrar as gentes na Avenida Marginal.

Já não havia areia, já existia o Banco de Angola, Cais de pesca e muitas palmeiras imperiais enfeitando um largo passeio ladrilhado e  asfaltado desde a fortaleza de São Miguel no Baleizão e o porto de mar do Bungo com sua praça imperial e a estátua do Navegador Paulo Dias de Novais  (esta estátua deveria voltar ao seu sítio)

Os blocos  desfilavam em corso, mascarados, com latas pintadas, apitos, vestes coloridas a emitar reis do Puto distante e muitas espadas, lanças, escudos e coroas; naquele dia toda a gente era rei,… Quem o quizesse ser!

Os reinos de N´gola e Kongo estavam sempre representados.

A cidade do Lobito aderiu às festividades e na ilha da Restinga o corso passava despejando quilos e quilos de fuba para tornar todos brancos e atrás, uma agulheta de água consolidava a máscara branca com figuras de sinistra aparência. Naquele dia eram todos brancos e Zumbis.

As festas de salão faziam-se um pouco por todo o lado com a eleição de “miss” qualquer coisa com Nelsom Ned a acompanhar. Mais tarde surgem  os N´gola Ritmos, Os Cunhas, os Rok´s e os Duo Ouro Negro. Seguiram-se-lhe  o Lubango, Benguela das acácias rubras, Huambo, Sumbe e tantas outras localidades até que surgiu a Revolta dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, comandada por uns quantos oficiais superiores das Forças Armadas de Portugal, cujos resultados se repercutiram nas colónias portuguesas em África até à proclamação das suas independências.

Carnaval: Uma festa ressurgida por Neto

« […] Vamos todos trabalhar mais. E, depois, talvez a gente possa organizar qualquer coisa para a diversão da juventude, como por exemplo o carnaval. Querem carnaval ou não? Então vamos organizar, este ano, o carnaval»                                                                                                                                                                                                                                                                                               Agostinho Neto

O Carnaval que já se notabilizou como uma das festas mais populares do país, registou na sua história várias interrupções. A primeira aconteceu na década de 1940 com a eclosão da IIª Guerra Mundial; a segunda entre 1961 e 1963, com o início da luta de libertação nacional, período que também não houve carnaval por decreto do regime salazarista; e uma terceira que aconteceu entre 1975 a 1977.

O ressurgir das festividades carnavalescas na então República Popular de Angola foi protagonizado, em 1978, pelo Fundador da Nação e primeiro Presidente de Angola, Dr. António Agostinho Neto.

Num comício bastante popular realizado num dos mais emblemáticos municípios de Luanda (o Cazenga), o Poeta-Presidente propunha à população do país a realização do Carnaval numa perspectiva diferente daquela até então conhecida.

O restabelecimento do entrudo como uma festa pública e de recreação popular, foi idealizada por Agostinho Neto, com a finalidade de tirar a população do marasmo que absorvia completamente a sua actividade diária.

Deste modo, a história do carnaval pós-independência está intrinsicamente ligada à personagem de Agostinho Neto que, com o seu discurso popular e promissor, apelou aos angolanos à celebração das vitórias conquistadas pelo país, designando assim o carnaval da vitória. Esta foi a tónica predominante do Carnaval durante muitos anos.

Para além da sua formação em Medicina, da sua veia literária e do seu desejo de ver o direito à vida ser irrefutavelmente respeitado, Agostinho Neto revelou-se também uma personagem impulsionadora das manifestações culturais e do resgate do legado cultural do país, como pode ser lido no seu poema do livro Sagrada Esperança, intitulado Havemos de Voltar:

«À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar»

A edição 2021 do Carnaval de Luanda, cujos desfiles vão ocorrer em formato live realiza-se entre os dias 14 e 16 deste mês, no espaço do Centro de Produção da TPA, na Camama.

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