Casal transforma apartamento em habitação de acolhimento

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Um casal residente na Cidade do Sequele, município de Cacuaco, em Luanda, transformou o apartamento em que vive em lar de acolhimento, uma ideia aplaudida pelos três filhos que Rui Gonçalves e Isabel Gonçalves trouxeram ao mundo.

A ideia começou a ter corpo quando, em 13 de Junho de 2018, o casal acolheu duas crianças de rua, número que, actualmente, cresceu para 30 pessoas, entre crianças e jovens, de ambos os sexos, que são cuidados à dimen-são do tratamento que Rui Gonçalves e Isabel Gonçalves dão aos três filhos biológicos, que gostam da ideia altruísta dos pais.
O apartamento de quatro quartos transformou-se em Centro de Acolhimento Rabi e está localizado no rés-do-chão do prédio 8, no bloco 7, da Cidade do Sequele, em cujo espaço exíguo vivem “milagrosamente”, no total, 35 pessoas, incluindo já o casal e os três filhos, de 12, dez e sete anos.
Uma bebé de cinco meses, cuja mãe é uma jovem que ainda se encontra no mundo das drogas e da prostituição, é o mais pequeno dos acolhidos pelo casal.
A pessoa mais velha tem 20 anos. Há no apartamento do casal raparigas, algumas das quais acolhidas com filhos, que eram “trabalhadoras de sexo”, de cuja vida saíram depois de terem en-contrado o caminho que as levou ao apartamento onde encontraram a redenção.
Delfina e Marinela, numa conversa com o Jornal de An-gola, dizem que não encontram palavras para exprimirem o apreço que têm pelo casal, por via do qual conseguiram sair da profissão mais antiga do mundo que era feita em paralelo com o consumo exagerado de álcool.
Delfina, uma jovem de parcas palavras, conta que optou pela prostituição por não ter conseguido emprego. Quando procurava emprego em várias zonas da cidade de Luanda era constantemente aliciada. “É assim que entrei na má vida”, conta Delfina, que diz estar “muito arrependida”.
Mais faladora é Marinela. Ela acentua, logo no início da conversa, que estava num mundo que não era o seu. Como forma de agradecimento ao casal, não se cansa em dizer que foi acolhida numa altura em que estava grávida de cinco meses. Marinela trouxe ao mundo o segundo filho há oito meses. Tem um casal de filhos. O varão está agora com um ano.
Vivem com a mãe no apartamento de Rui Gonçalves e Isabel Gonçalves. Reabilitada há dois anos, Marinela diz não ter vergonha de contar a sua história de vida por ser uma decisão que tomou para encorajar outras a abandonarem a prostituição. “Com o apoio da sociedade, eu quero resgatar almas perdidas”, conta Marinela, que diz já estar “reconvertida”.
“É triste ver jovens no mundo da prostituição e do álcool, que não é de prosperidade”, salienta Marinela, para quem “elas só estão ali porque acham que o mundo não tem nada para lhes oferecer, quando, na verdade, tem”.
De uma coisa Marinela tem a certeza: “A má vida destrói a família e a sociedade”. Foi nessa altura em que Rui Gonçalves, atento à conversa, decide interrompê-la para mencionar o caso de Mira, a mãe da bebé de cinco meses.
“Com carinho recebemos a jovem, que, depois de ter feito consultas de pré-natal, deu à luz sem nenhuma complicação”, conta Rui Gonçalves, que lamenta o facto de Mira ter abandonado o fi-lho quando este tinha quatro meses de vida.
“Estamos a cuidar da criança, que hoje tem cinco meses”, acentua Rui Gonçalves, lembrando que, há dias, Mira ligou, “mas não falava coisa com coisa”.
O apartamento está aberto a recebê-la, declara Rui Gonçalves, que informa haver mais duas crianças abandonadas pelas mães, uma de dois anos e outra de três.
As duas crianças estão à guarda do casal muito antes de completarem um ano. Foram levadas ao local pela pastora Teresa Alemão, da Igreja Maná, que tem prestado apoio ao casal.
O projecto social do casal vive basicamente de doações, vindas de instituições religiosas, de comerciantes e de pessoas singulares sediados no distrito urbano do Sequele.
Os três filhos biológicos do casal dão-se bem com os irmãos adoptivos, informação confirmada por Rui Gonçalves. “Aqui todos têm os mesmos direitos e deveres. Têm a mesma hora para brincar, fazer a refeição, passear, com excepção dos mais pequenos, que têm um acompanhamento diferenciado, semelhante ao das creches”, explica Rui Gonçalves. Isabel Gonçalves entra na conversa e transmite um recado: “quem é mãe deve conversar muito com os filhos para não entrarem na má vida, como a prostituição e o consumo de droga”.

Apoio institucional
O casal diz ser reconfortante o facto de receber constantemente apoio moral de responsáveis de instituições sediadas no Sequele. “Temos interagido com a administradora interina do distrito urbano do Sequele, Níria Marques, e com a responsável pela área de Acção Social.” Algumas das crianças que vivem com o casal já estão em idade escolar. O material escolar é assumido por pessoas que sempre apoiaram o projecto idealizado por Rui Gonçalves e Isabel Gonçalves, que aplaudem a sensibilidade do Hospital Distrital do Sequele que dá assistência “às nossas crianças, sem nenhum constrangimento”.

Novas instalações
O casal não quer ficar pelo número de pessoas que ajudam actualmente. Tanto é assim que tem planos para transferir o projecto para uma outra área de maior dimensão. Num terreno existente no bairro Mayé-Mayé, o casal vai construir instalações definitivas. “Vai ser uma obra de raiz”, explica Rui Gonçalves. “Vai ser um local para dar dignidade às crianças e não só”, promete Rui Gonçalves.

Fonte: JA/LD

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