Bexiga Hiperativa. “Durante toda a vida achei que era uma falha minha”

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Hoje, 14 de março, assinala-se o Dia Internacional da Incontinência Urinária e o Lifestyle ao Minuto fala-lhe de uma condição que muitas vezes origina o pior caso de incontinência urinárina, a bexiga hiperativa.

 

A bexiga hiperativa é uma síndrome que se caracteriza por um aumento da frequência urinária, uma urgência em urinar, muitas vezes acompanhada de noctúria – necessidade de se levantar durante a noite para esvaziar a bexiga, interrompendo assim o sono – e também associada a incontinência urinária. Estima-se que mais de um milhão e meio de portugueses são afetados por esta condição.

Apesar de não ocorrer em todos os casos de bexiga hiperativa, como destaca o Dr. Frederico Ferronha, urologista no Hospital de São José, em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, “este tipo de incontinência caracteriza-se por uma micção completa, ou seja, o doente não vai perder uma gotinha nem duas de urina, vai fazer uma micção completa, sendo capaz de se urinar todo”. Portanto, “100, 200 ou 300ml de urina que saem ali inesperadamente e sem que o doente consiga travar”.

Isolete Dias, 40 anos, conta ao Lifestyle ao Minuto que tinha urgência em urinar e perdas desde criança. “Os meus pais diziam que era daquelas coisas de criança, que era preguiça e que ia passar. Foi continuando na adolescência e eu própria questionava-me se não seria um problema meu, psicológico”.

O Dr. Frederico Ferronha sublinha que apesar de os sintomas se poderem agravar com o stress ou a ansiedade, a bexiga hiperativa não é um problema psicossomático, é mesmo uma patologia.

O diagnóstico é feito com base no quadro clínico e nos sintomas, sendo que podem ser feitos exames complementares para excluir outras situações como infeção urinária ou outras que podem mimetizar os sintomas da bexiga hiperativa.

“Sabe-se que a bexiga hiperativa pode ter várias causas e origens, mas caracteriza-se basicamente por contrações involuntárias que o próprio músculo da bexiga apresenta e que obrigam a urinar. Há, portanto, uma hiperatividade do detrusor, que é o músculo da bexiga”, explica o especialista.

Além desta hiperatividade, os doentes também têm uma bexiga mais sensível, fazendo com que tenha menos capacidade de armazenamento.

Em grande parte dos doentes a bexiga hiperativa é de “causa idiopática, ou seja, não se sabe a causa. Ainda não sabemos por que se desenvolve a bexiga hiperativa, sabemos que é mais frequente nas pessoas mais velhas, que há fatores de risco, como a diabetes, a obesidade e multiparidade, que aumentam a probabilidade de ter a doença, mas que não são propriamente causas”, destaca o especialista.

Quase todos os outros, segundo o urologista, são de origem neurogénica, e a esses casos chama-se bexiga neurogénica – em caso de doença neurológica, como Parkinson ou AVC que origina os sintomas.

“Afinal de contas, isto é uma doença”

Isolete Dias conta que só descobriu que sofria de bexiga hiperativa em 2007, já com 31 anos. Até aí, foi arranjando estratégias para combater os sintomas: “Comecei por beber o mínimo possível, tentar estar em sítios sempre próximos de casas de banho, mas cheguei a uma altura em que me isolei bastante. Não é fácil viver desta maneira”.

Procurou pessoas com o mesmo problema mas conta que as pessoas não têm muita abertura para falar do assunto, mas foi em busca de soluções: “Na altura, como pensava que isto era um problema de sistema nervoso ou qualquer coisa assim, fui a um neurologista. Ele aconselhou-me a ir a um urologista, que me disse logo que pelos sintomas que descrevi seria bexiga hiperativa e até hoje estou a ser seguida por ele.”

“Todos os anos faço uma pequena cirurgia, que é uma injeção de toxina botolínica. Já testei o neuroestimulador, mas comigo não resultou. E tomo medicação. Já consigo controlar melhor, só noto algo quando o efeito da toxina está a passar”, conta Isolete.

E acrescenta: “Custou-me muito ter passado tanto durante todos estes anos sem saber que afinal tinha um problema de saúde, a bexiga hiperativa, e que afinal não era um problema meu. Toda a adolescência achei que era um problema meu, uma falha minha, algum descontrolo meu, e afinal de contas isto é uma doença. Desde que estou a ser tratada tenho uma vida normal, mas a minha infância e a minha adolescência foram muito sofridas. Isolei-me muitas vezes, deixei de sair”.

Isolete veio ainda a descobrir que sofria espinha bífida oculta e que a bexiga hiperativa é um dos sintomas deste problema.

Relata ainda que este problema de saúde afetou a sua vida profissional. “Nem todos os patrões entendem que de 5 em 5 minutos ou de 10 em 10 minutos temos de ir a correr à casa de banho e largar o que estamos a fazer. Há pessoas que entendem, mas há outras que acham que é uma forma de trabalhar menos. Disse a um patrão que tinha um problema de saúde que me obrigava a ir muitas vezes à casa de banho e cheguei a ouvir a resposta ‘se tens um problema de saúde, trata-te’, mas isto não é uma coisa que se possa ir à farmácia, comprar um medicamento e já está.”

Se não há cura, o que pode ser feito?

O Dr. Frederico Ferronha diz que “não podemos dizer que há cura, é uma doença crónica, mas há tratamento.”

Conta que o tratamento passa primeiro por fazer mudanças no estilo de vida – evitando consumir estimulantes do músculo da bexiga, como café, chá preto, chocolate, sumo de laranja, ter o cuidado de fazer uma hidratação equilibrada, uma vida saudável com exercício físico regular e fazer a reabilitação do pavimento pélvico.

No que toca ao tratamento medicamentoso, os pacientes podem contar com os anticolinérgicos, que inibem o sistema nervoso parassimpático – é o sistema nervoso autónomo responsável pela contração do músculo da bexiga.

O especialista explica que os de última geração, os M3 são mais seletivos e específicos para o músculo da bexiga, diminuindo os efeitos adversos – que podem passar por sintomas como boca seca ou obstipação, devido à ação do medicamento em todo o sistema nervoso parassimpático que acaba por afetar a produção de saliva e a própria motilidade do intestino.

Existe também uma nova classe de fármacos – para já só tem um representante que é o mirabegron – que são os simpaticomiméticos, que vão mimetizar o efeito do sistema nervoso simpático. “Ao estimular o simpático vamos relaxar a bexiga, aumentando a sua capacidade volumétrica e fazendo com que o paciente tenha menos urgência urinária”, explica.

“Ao contrário dos outros fármacos, que inibem o sistema nervoso parassimpático, este estimula o simpático na bexiga”, conclui o urologista.

Para apoiar a divulgação e sensibilização relativamente à bexiga hiperativa, a atriz Custódia Gallego deu a cara pela campanha nacional ‘Na Bexiga Mando Eu’, que conta com o apoio da Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia (APNUG)

“É muito gratificante para mim poder usar o facto de ser conhecida para comunicar coisas importantes e que podem ajudar as pessoas”, destaca Custódia Gallego.

Fonte: Lifestyle ao minuto/BA

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