Acesso à electricidade absorve até 90 mil milhões de dólares

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África precisa de 60 a 90 mil milhões de dólares para garantir o acesso universal à electricidade até 2030, um objectivo que passa por modelos de negócio inovadores, promoção das energias renováveis e projectos de pequena escala

A declaração foi prestada pelo coordenador dos Fundos de Energias Renováveis do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), João Sarmento Cunha, à agência Lusa, numa entrevista em que salienta que a electrificação de África até 2030 é um dos objectivos estratégicos mais ambiciosos do BAD, exigindo uma mobilização de recursos “gigantesca”, e estima que seja necessário gastar entre 60 e 90 mil milhões de dólares por ano.
“Não são recursos que o BAD tenha, mas a ambição está lá e a vontade de mobilizar parceiros e outros investidores é muito forte”, destacou. Embora, tradicionalmente, o BAD tenha dado prioridade a grandes projectos como barragens, centrais térmicas e outras infra-estruturas, que estava “bem posicionado para financiar”, começa a apoiar agora também projectos de menor escala, como as pequenas centrais solares ou mini-hídricas ligadas à rede, que estão a ganhar força em África, graças às inovações tecnológicas no campo solar e digital.
Algumas empresas vendem os seus produtos directamente às comunidades, em vez de vender os serviços através das utilities (grandes fornecedores de serviços essenciais, como luz e água). As soluções passam normalmente por pequenos painéis solares que podem ser ligados a electrodomésticos ou a mini-redes que estão fora do sistema de distribuição eléctrica, mas que oferecem uma experiência semelhante ou até melhor (off-grid). Apresentam, no entanto, outros desafios, adianta o responsável do BAD.
“Estamos a falar de um segmento que deveria ser colmatado por bancos comerciais. Daí a necessidade de criar uma iniciativa para financiar estes vários modelos de negócio, um fundo que pudesse catalisar e captar financiamento de outros investidores, sejam eles doadores ou investidores comerciais. Surgiu assim o Fundo para a Inclusão Energética (FEI), uma plataforma de financiamento de energias renováveis de pequena escala em África, que permite canalizar verbas para estes projectos e estruturar o financiamento da melhor forma para que se tornem bancáveis, explicou João Sarmento Cunha.

Modelo de financiamento
A plataforma divide-se entre um subfundo com uma capitalização de 100 milhões de dólares, que já está operacional, destinado a sistemas de distribuição de energia independentes, essencialmente “kits” solares (Fundo de Acesso à Energia Off-Grid ou OGEF, na sigla inglesa); e um outro subfundo para apoiar soluções de pequena escala e mini-redes (FEI On-Grid) até 30 milhões de dólares.
O responsável dos fundos adiantou que este “é um mercado que está em expansão” e que espera angariar até 500 milhões de dólares entre 2019 e 2020, nos dois fundos, para electrificação com recurso a energias renováveis. Um dos projectos exemplificativos é o que está a ser conduzido pela BBoxx no Rwanda, que produz kits solares e utiliza uma plataforma de pagamentos digitais onde os clientes podem pagar em prestações, via telemóvel, à medida do que consomem, podendo adquirir o equipamento no final.
O projecto deverá alcançar cerca de 80 mil sistemas e conta com um financiamento de oito milhões de dólares, em francos rwandeses, minimizando os riscos de desvalorização da moeda, “muito comuns em África.”
O responsável do BAD explicou que este é um dos principais problemas para as empresas que vendem produtos e serviços pagos em moeda local e enfrentam um “risco cambial muito grande”, pois só se conseguem financiar em dólares ou euros.

Compacto lusófono

O BAD está também focado no investimento em países lusófonos, através do chamado Compacto Lusófono, um acordo que dá acesso a financiamentos da instituição, combinados com garantias da Sociedade para o Financiamento do Desenvolvimento (Sofid), entidade pública portuguesa.
“Há muito interesse em promover mais investimento nesses mercados. Na área de energia, há um trabalho em curso nos países lusófonos”, incluindo nas áreas de assistência técnica para preparar projectos para financiamento ou apoiar entidades públicas a atrair o investimento na área das renováveis.
Em Angola, foi aprovado recentemente um programa para apoiar a capacitação na área das renováveis.
João Sarmento Cunha destacou um projecto de dessalinização através da energia das ondas na Ilha de São Vicente em Cabo Verde, que “poderá vir a ser uma referência em África”, bem como um projecto hidroeléctrico na Guiné-Bissau, que terá uma capacidade instalada de 20 megawatts por hora e mini-hídricas em São Tomé.

Fonte: JA/JS

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