Abandonar o país a troco de dinheiro ou ser preso? “Não sei o que fazer

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As autoridades israelitas começaram a emitir notificações para que cerca de 20 mil migrantes africanos do sexo masculino abandonem o país nos próximos 60 dias. Caso não o façam, podem ser presos. Há mais 17 mil pessoas que continuam num impasse, temendo o pior.

Para o governo de Benjamin Netanyahu, expulsar os migrantes, considerados como “infiltrados” no país que procuram trabalho e não asilo, o objetivo é “obrigar os migrantes ilegais” a deixarem o país. O destino de 37 mil imigrantes africanos, sobretudo oriundos do Sudão e da Eritreia, estão nas mãos do executivo, que não parece querer recuar na sua decisão.

Como incentivo para abandonarem Tel-Aviv, o governo está a dar perto de três mil euros em dinheiro e um bilhete para um país considerado “seguro” na África Subsariana.

No entanto, as notificações de deportação, que já começaram a chegar aos migrantes, não referem, concretamente, qual o país que os irá acolher. De acordo com vários grupos de defesa dos Direitos Humanos, o Uganda e o Ruanda são os nomes mais falados, apesar de nada ser certo.

Depois de a decisão ter sido tomada, as autoridades israelitas têm analisado vários pedidos de residência no país. Dos 6.800 analisados até agora, o estatuto de refugiado só foi atribuído a 11 pessoas. Faltam processar mais de oito mil casos.

Apesar das críticas provenientes, sobretudo, de grupos activistas e de vários sectores da sociedade civil, o governo israelita mantém a intransigência.

O ministro do Interior, Aryeh Deri, diz que a obrigação de Israel é para com os seus próprios cidadãos e não com os migrantes. “O pequeno Estado de Israel não pode conter um número tão vasto de infiltradores ilegais”, disse o ministro.

Além disso, nos últimos anos, Israel tem construído uma vedação na sua fronteira com o Egito, uma medida que pretende impedir migrantes provenientes de África de pisarem solo israelita.

“Vim para Israel para salvar a minha vida”

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) pediu a Tel-Aviv para suspender a política de deslocação forçada. “Pedimos a Israel que procure alternativas legais para a deslocação destas pessoas para outros países”, apelou o porta-voz William Spindler.

Dentro de Israel, são cada vez mais as vozes que pedem ao governo de Netanyahu que reconsidere. Vários rabinos e grupos de sobreviventes do Holocausto, bem como cidadãos e cidadãs comuns, sublinham a importância de Israel demonstrar compaixão para com os migrantes, uma vez que o país foi construído, precisamente, com grandes vagas de imigração.

Uma das grandes preocupações de activistas de defesa dos Direitos Humanos é que, ao serem expulsos do país, muitos migrantes fiquem em perigo nos países de destino. Os africanos a viver em Israel, muitos deles há vários anos, temem, para lá de perder tudo o que conseguiram ao longo do tempo, o desconhecido.

“Não sei o que fazer. O Ruanda e o Uganda não são o meu país. O que é que um terceiro país poderá fazer por mim?”, lamentou Berihu Ainom, eritreu ouvido pela Reuters, que recebeu a notificação para abandonar Israel no domingo.

No mesmo sentido, Afoworki Kidane, que fugiu da opressão na Eritreia, não equaciona sair de Israel. “Vim para Israel para salvar a minha vida”, desabafou. Kidane, que receia voltar ao pesadelo que viveu na Eritreia, um dos países mais fechados do mundo, garante que está disposto a ser preso, porque jamais aceitará o dinheiro e o bilhete de avião, aquilo que o governo de Netanyahu tem para oferecer a este eritreu que vive em Israel há nove anos.

Fonte:NM/BA

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